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quarta-feira, 1 de junho de 2011
ABANDONAR O NAVIO!!!
Em 2003, pouco antes da estréia, lembro que PIRATAS DO CARIBE: A MALDIÇÃO DO PÉROLA NEGRA (Pirates Of The Caribbean: The Curse Of The Black Pearl) era aguardado com desconfiança pela crítica - afinal, o que um filme baseado num brinquedo da Disney poderia render!? - o gênero "filme de pirata" já estava em decadência havia anos (o próprio Polanski manchou a carreira com o idiota PIRATAS, de 1986, com Walter Matthau); mas o elenco prometia: Johnny Depp, Orlando Bloom e Keira Knightley. Resgatando o espírito de filmes de "capa e espada" que consagraram Errol Flynn, respirando um novo frescor através de cenas de batalhas muito bem arquitetadas, roteiro oitentista e o carisma de um personagem que de coadjuvante tornou-se protagonista da franquia, Piratas do Caribe tornou-se uma marca milionária, arrebatando fãs no mundo todo.
Considerado o Midas de Hollywood, o produtor Jerry Bruckheimer, acertou em cheio ao escalar um elenco de peso - além dos já mencionados, há a ótima contribuição de Geoffrey Rush - a trilha sonora de Hans Zimmer que tornou-se hit entre fãs e simpatizantes da série e, sobretudo, a direção de Gore Verbinski (que apesar do nome, nasceu nos States mesmo). Verbinski chamou a atenção após dirigir O CHAMADO (The Ring), adaptação hollywoodiana do nipônico "RINGU", que, apesar de não ser considerado à altura do original (lógico!), cumpriu seu papel em assustar muito marmanjo no Ocidente. Em 2005, Verbinski provaria seu tino para estórias nada fantásticas com o pouco conhecido e excelente O SOL DE CADA MANHÃ (The Wheather Man), que teve o inconstante Nicolas Cage como protagonista.
Em 2006 a sequência estrelou com estardalhaço! PIRATAS DO CARIBE: O BAÚ DA MORTE (Pirates Of The Caribbean: Dead Man's Chest) arrecadou quase 136 bilhões no final de semana de estréia, só nos US. Filmado em conjunto com o terceiro capítulo da série, nos moldes de O SENHOR DOS ANÉIS. Muito mais à vontade e com um orçamento dos sonhos, Verbinski, pôs em prática todo seu talendo visual. Logo no prólogo, a cena chuvosa do casamento cancelado entre Elizabeth Swann e Will Turner atestam o olho acurado do diretor, a química entre os atores, a profundidade nos conflitos… O segundo capítulo da série é de longe o melhor! Introduzindo um vilão bacana, interessante e assustador; conferindo à Jack Sparrow uma aura mítica; fazendo espectadores do mundo todo vibrarem e rirem com as cenas - muitas surreais - de ação. Filme pipoca da melhor qualidade. Piratas 2 deixou todos salivando pelo terceiro.
OK. No ano seguinte o terceiro capítulo, que, supostamente, encerraria a série, não naufragou por pouco. PIRATAS DO CARIBE: NO FIM DO MUNDO (Pirates Of The Caribbean: At The World's End) tem um terceiro ato exagerado e difícil de engolir, mesmo para um filme de fantasia épica. Mas, consegue se manter. Novamente, créditos ao diretor. Os roteiristas acabam por criar uma trama tão intrincada em O BAÚ DA MORTE que o nó de marinheiro acaba por não ser completamente desatado em NO FIM DO MUNDO. Mas, confesso, a cena depois dos créditos finais deste filme tem um significado muito especial para mim. Aliás, para os desavisados: todos os filmes da franquia tem cenas curtas depois do créditos finais.
Bom, mas tudo isso foi só uma introdução para chegar ao filme em questão:
Considerado o Midas de Hollywood, o produtor Jerry Bruckheimer, acertou em cheio ao escalar um elenco de peso - além dos já mencionados, há a ótima contribuição de Geoffrey Rush - a trilha sonora de Hans Zimmer que tornou-se hit entre fãs e simpatizantes da série e, sobretudo, a direção de Gore Verbinski (que apesar do nome, nasceu nos States mesmo). Verbinski chamou a atenção após dirigir O CHAMADO (The Ring), adaptação hollywoodiana do nipônico "RINGU", que, apesar de não ser considerado à altura do original (lógico!), cumpriu seu papel em assustar muito marmanjo no Ocidente. Em 2005, Verbinski provaria seu tino para estórias nada fantásticas com o pouco conhecido e excelente O SOL DE CADA MANHÃ (The Wheather Man), que teve o inconstante Nicolas Cage como protagonista.
Em 2006 a sequência estrelou com estardalhaço! PIRATAS DO CARIBE: O BAÚ DA MORTE (Pirates Of The Caribbean: Dead Man's Chest) arrecadou quase 136 bilhões no final de semana de estréia, só nos US. Filmado em conjunto com o terceiro capítulo da série, nos moldes de O SENHOR DOS ANÉIS. Muito mais à vontade e com um orçamento dos sonhos, Verbinski, pôs em prática todo seu talendo visual. Logo no prólogo, a cena chuvosa do casamento cancelado entre Elizabeth Swann e Will Turner atestam o olho acurado do diretor, a química entre os atores, a profundidade nos conflitos… O segundo capítulo da série é de longe o melhor! Introduzindo um vilão bacana, interessante e assustador; conferindo à Jack Sparrow uma aura mítica; fazendo espectadores do mundo todo vibrarem e rirem com as cenas - muitas surreais - de ação. Filme pipoca da melhor qualidade. Piratas 2 deixou todos salivando pelo terceiro.
OK. No ano seguinte o terceiro capítulo, que, supostamente, encerraria a série, não naufragou por pouco. PIRATAS DO CARIBE: NO FIM DO MUNDO (Pirates Of The Caribbean: At The World's End) tem um terceiro ato exagerado e difícil de engolir, mesmo para um filme de fantasia épica. Mas, consegue se manter. Novamente, créditos ao diretor. Os roteiristas acabam por criar uma trama tão intrincada em O BAÚ DA MORTE que o nó de marinheiro acaba por não ser completamente desatado em NO FIM DO MUNDO. Mas, confesso, a cena depois dos créditos finais deste filme tem um significado muito especial para mim. Aliás, para os desavisados: todos os filmes da franquia tem cenas curtas depois do créditos finais.
Bom, mas tudo isso foi só uma introdução para chegar ao filme em questão:
PIRATAS DO CARIBE: NAVEGANDO EM ÁGUAS MISTERIOSAS
(Pirates Of The Caribbean: On Stranger Tides, 2011)
Direção: Rob Marshall
(Pirates Of The Caribbean: On Stranger Tides, 2011)
Direção: Rob Marshall
Geoffrey Rush
Logo antes da estréia do terceiro capítulo da série, haviam burburinhos de que a série provavelmente não acabaria com NO FIM DO MUNDO. Fãs em polvorosa. Declarações desencontradas. Um filme solo de Jack Sparrow… Logo a confirmação: o próximo filme da franquia seria sobre a procura de Jack Sparrow à fonte da juventude. Uma boa premissa. Os roteiristas teriam a faca que o queijo na mão: um personagem carismático, um tema que renderia aventuras fantásticas e ainda poderiam emular questões importantes sobre a futilidade da busca pela juventude eterna, tudo numa franquia já muito bem-estabelecida… Cagaram! O novo PIRATAS é um sucesso de bilheteria, mas, singra na glória de feitos passados. O filme em si é fraco e decepciona.
Abandonando os ótimos Will Turner (que tomou o lugar de Dave Jones) e sua amada Liz Swann, os roteiristas decidiram presentear o Capitão Jack com par romântico, no caso, Angelica (Cruz). Acresceram, ainda, à trama outro casalzinho mais apaixonado e insosso: Philip e Syrena. Barbossa retorna. Um novo vilão é introduzido. Da antiga tripulação do navio Pérola Negra somente Gibbs (Kevin McNally), está de volta. E… o maior erro de todos: sai Gore Verbinski para dar lugar ao timão para Rob Marshall. Marshall que criou o espetáculo visual de CHICAGO e o drama MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA (Memoirs Of A Geisha, 2005). Mas, o mesmo Marshall também do equivocado NINE e, convenhamos, CHICAGO é um saco! Ainda assim, esperava-se de Marshall um melhor cuidado com as atuações e, por sua experiência em musicais, coreografias de batalha emocionantes. Não tivemos nada disso.
O filme navega o tempo todo sobre os ombros de Johnny Depp, que, por melhor ator que seja, não consegue ofuscar o roteiro defeituoso e a direção estabanada. Colocando Sparrow como protagonista principal, os roteiristas se viram numa sinuca de bico: tentaram resolver o dilema de forma covarde; mudaram o personagem. Se antes tínhamos um Sparrow pirata, instável, dissimulado, somos neste capítulo obrigados a vê-lo criando estratégias, planos e racionalizando. Ao tentar salvar seu antigo companheiro Gibbs, Sparrow descobre que existe um impostor usando seu nome para recrutar uma tripulação afim de encontrar a Fonte da Juventude. Desmascarando-a, já que o "impostor" é Angelica, antigo amor do personagem - uma tática tão batida, quanto simplória, por parte dos roteiristas que, provavelmente, não queriam queimar a caxola na hora de criar uma empatia real entre o casal. O primeiro ato é uma série de besteiras. O júri que não reconhece Sparrow fantasiado de um juiz muito conhecido, os soldados ingleses - ou melhor todos os ingleses de um modo geral, inclusive o Rei George - estabanados, que dão à Sparrow todas as armas e saídas para sua fuga, de mão beijada. Em momento algum há qualquer tensão. O público fica até embasbacado com a facilidade a qual o Capitão Jack escapa. Cenas de batalhas confusas, câmeras inseguras que não sabem muito bem pra onde olhar, posso arriscar que o próprio Sparrow não fica muito à vontade com a facilidade. Existe um longo diálogo entre Sparrow e Gibbs, que, é fato, serve apenas para contar ao público o que está rolando e quais são os planos. E isso será uma constante no filme: diálogos maçantes e explicativos. Nada é aludido, tudo é exposto.
Sem notar, Sparrow e o espectador se vêem no navio do pirata Barba Negra (McShane), navegando em direção à Fonte da Juventude. E aí, talvez, você pensa que a trama po tornar-se interessante... Puro engano! Barba Negra é um vilão frouxo, que acata os comandos de sua filha Angelica, a qual pretende salvar a alma do pai, e, por esse motivo, mantém vivo à bordo um missionário desbocado (Sam Claflin), que vive atazanando a vida do pirata temido até por outros piratas (?!?). Barbossa, vendido ao rei, quer vingança contra Barba Negra por ter-lhe amputado a perna direita, agindo como capitão real. Gibbs barganha sua vida ao memorizar o mapa que revela a localização da Fonte da Juventude.
O segundo ato desperta os que estava sonolentos. Sereias. O uso do mito grego é acertado em fazer com que os piratas já saibam que estas são perigosas e mortais - afinal, a estória já se passa no século XVIII... - os marujos querem caçá-las, já que o ritual demanda a lágrima de uma sereia. Um momento bacana, mas, ao mesmo tempo, estranho: as sereias de Marshall são muito parecidas com as PIRANHAS ASSASSINAS 3D... Introduz-se uma nova personagem, a sereia Syrena (Astrid Berges-Frisbey), que desperta a compaixão e amor do missionário Philip em cenas açucaradas e desnecessárias. Saudade do carisma de Lizz e Will. Trama arrasta-se para um terceiro ato previsível e sem emoção.
Além das falhas de Rob Marshall que não soube criar misé-en-scenes - posição dos atores em cena - interessantes, por não ter sido capaz de defender seus atores e personagens de situações embarasosas, por não ter tido punho e tino para criar cenas de aventura realmente emocionantes, enfim, por não ter exigido mais de si o dos de sua equipe; existe o principal defeito que é o roteiro furado e covarde, que trapaceia com o espectador várias vezes, que não se dá ao trabalho de desenvolver alternativas para dizer ao público o que eles precisam saber sem quebrar o ritmo da aventura, por escorar-se em rostos famosos para eximir-se de criar personagens carismáticos e intrigantes - não há paradoxos, só incongruências - que despertem a imaginação e o carinho dos fãs mesmo longe das telas, que não se leva à sério. Para minha tristeza, até o próprio Hans Zimmer em nada contribui para este quarto capítulo, usando uma trilha sonora requentada dos outros filmes. que, sempre na dúvida em compor uma melodia recorre ao tema do violino o qual os fãs ligam ao Capitão Jack Sparrow ou a batalha sinfônia, usada nos trailers - outra interferência na trilha é da dupla mexicana Rodrigo y Gabriela, numa tentativa tosca de conferir à fita um ar "caliente" - nem Keith Richards, em aparição maior que a que fez no terceiro filme foi bem aproveitado. Com um mito nas mãos tudo o que Marshall e os roteiristas souberam fazer um diálogo maçante e dispensável.
Fãs da série, façam o movimento contra o Rob Marshall! Se o cara continuar na franquia ele poderá fazer a Sparrow o que Joel Schumacher fez ao homem-morcego… e não sei se está nos planos de Christopher Nolan dirigir um filme de piratas.
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domingo, 29 de maio de 2011
NINGUÉM CALA, POR CALAR
O NATIMORTO
2009
Direção: Paulo Machline
Lourenço Mutarelli
Simone Spoladore
Betty Gofman
"O Mutarelli é foda! Ele é muito foda!!!", era só isso o que minha amiga Dani conseguia repetir depois da sessão de O NATIMORTO. Eu, sinceramente, não conseguia dizer palavra alguma. Embora leigo em questão do Mutarelli, saí do cinema com sensação estranha de que alguém houvesse roubado meus diários mais íntimos e pensamentos mais sombrios e feito um filme com isso. Mas… deixemos essas divagações para o Making Of, certo.
Roteiro adaptado por Andre Pinho, do livro O Natimorto - Um Musical Silencioso (escrito por Mutarelli), o filme conta com a lente crua e lírica de Paulo Machline. Os diálogos criados pelo próprio Mutarelli, que, ao atuar como seu protagonista, confere à fita sua aura sombria e subterrânea; compôem junto as atuações impecáveis de Gofman e Spoladore, uma obra forte, enervante. Transbordando misantropia e lirismo.
Um Agente de talentos apaixona-se por uma garota de "Voz pura", convidando-a para São Paulo onde ele apresentá-la-á ao maestro que poderá lançá-la ao estrelato. A relação gera o ciúme de Esposa do Agente, que desdenha da impotência sexual do marido diante da Voz. Após uma cena histérica de ciúme da Esposa, o Agente faz uma proposta para Voz: viverem num quarto de hotel, isolados, juntos, usando das economias do Agente. A proposta amalucada cria um misto de riso zombeteiro e admiração na Voz. Ela aceita, não aceitando, por assim dizer. Deixa-se levar. Estabelecendo-se uma relação ambivalente: o Agente ama a Voz, um amor supremo, que extrapola o físico, intangível; a Voz admira a inteligência do Agente, suas histórias, seus simbolismos, sua figura frágil e "assexuada". Mas, ambos cientes de seu poder magnetizador um sobre o outro: a Voz tem consciência de sua beleza, de seu encanto; o Agente é sagaz e ardiloso, fazendo-se valer de suas histórias e interpretações místicas e metafísicas, hipnotizando sua presa.
O Agente convence a Voz a morar com ele num quarto de hotel, ela por sua vez se aproveita da mordomia de viver às custas dele. Cada um busca a segurança e algo mais. O Agente apresenta a Voz seu costume de interpretar as imagens de advertência nos maços de cigarros, ligando-as aos significados dos arcanos maiores do tarô. Isso desperta a curiosidade da Voz, a curiosidade humana natural pelo oculto. O Agente todas as manhãs interpreta seus maços, seu tarô, acreditando que o dia de cada um estará ligado ao significado da figura que cada teve a "sorte" de tirar. Entretêm a Voz com suas histórias de infância, como uma Sherazade que adia a Morte. Um Mago. Esta relação de poder psicológico que ilustra tão bem, de forma exacerbada como é de feitio da Arte, muitas relações amorosas. A tirania emocional, a divinização do ser-amado, platonismo, obsessão. Ele vê nela a pureza, o canto sublime. Ela vê nele a sabedoria, fonte de cultura. Entretanto, é no subsolo de cada ser que fervem as maquinações egoístas: ele quer subjugá-la, fazê-la sua; ele é para ela o trampolim, a segurança financeira, o súdito.
A persona do Agente está ligada ao sublime, ao intangível. Ele opta por ser um assexuado, pelo isolamento, pela misantropia, pela renúncia de tudo. O que cria em seu âmago a obsessão pela Voz, tão pura. Ele é O Enforcado, imperrado, em pausa, impotente. Ela demonstra aos poucos que sua aura divina é conferida apenas pelo Agente, sua real natureza é muita mais terrena. Seu canto sirênico, suas formas afrodisíacas, seu sorriso zombeteiro, seus lábios de Hécate. Tudo o véu de odalisca cai quando o Agente interpreta seu maço de cigarros como sendo a carta O Diabo. A Voz é paixão, instinto puro e sobretudo subserviente. É a "carta" do coisa-ruim que causa tumulto. Após esta interpretação Os Amantes descerão mais e mais à escuridão. Cigarros. Café. Lençóis sujos de sangue. Tudo se misturará!
O Natimorto: confere maternidade à mãe unida à dor no peito em dizer "meu filho morreu". Vida uterina que transcende à morte sem a mácula do mundo. As posições fetais do Agente emulam a criança assustada em todos nós. O anseio de morte é acreditar que poderá retroceder ao útero. Suas palvras são uivos sobre o túmulo materno, a constatação da imutabilidade do que já foi.
A lente de Lito Mendes da Rocha é dessaturada, desbotada. Mas, em momentos precisos, as cores vem com violência, como em acessos epiléticos. O vermelho-sangue. O verde-hipnótico. Cadênciados. Os planos são por vezes voyerísticos e etéreos. Como se o espectador fosse um inseto curioso, um espírito que espreita. A montagem de Oswaldo Santana tem ritmo: por ser um filme que se passa quase todo num só cenário, com dois personagens dialogando, o filme poderia arrastar-se. É mérito de Santana criar as ondas que impulsionam o espectador à interessar-se mais e mais pelos diálogos, pela trilha, pelas atuações. A mão precisa e segura de Machline orquestra tudo isso. Sendo, entre muistas escolhas, seu grande acerto em filmar a Voz cantando em silêncio, já que a perfeição aludida pelo Agente desmoronaria ao ouvirmos a voz real de qualquer que fosse a cantora. A perfeição etérea e platônica!
Betty Gofman esta amedrontadora, uma Esposa-Hera. Simone Spoladore empresta toda sua graça e sensualidade à Voz - uma sereia, uma odalisca, que gera paixão e ódio. Mutarelli é o Agente, indubitávelmente. Toda a obsessão e loucura do personagem, sua aparência dócil e inofensiva, são o próprio autor.
ATENÇÃO SPOILLER: Subversivo, subterrâneo, Mutarelli cria uma fábula sombria. O mito grego das sereias conta que estas criaturas belas encantavam navegadores homens com seu canto e formosura, atraíam-nos para junto de si, revelendo só no último segundo sua real natureza monstruosa, engolindo-os. A Voz sirênica encanta o Agente, cria-lhe a paixão, brinca com seus sentidos, colaca em xeque sua assexualidade, zomba de suas crenças, porém, não percebe que a hipnose do Agente é muito mais poderosa. A Voz não nota que apesar de sua repulsa pelo Agente, ela acaba sempre voltando. Eterno retorno. Lemniscata (
). Círculo vicioso. Paradoxos. Por que ela volta? Se ele lhe faz tanto mal, se ela não vê nele qualquer beleza, se tudo o que ele diz é horrível, por que voltar? A sereia está no redemoinho de Scylla, o monstro marinho. "Quanto você pesa?", ele pergunta mergulhado na banheira.
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MAKING OF: Escrevendo tudo isso me dei conta que comentar os "bastidores" da minha análise seriam doloridos demais. Obsessões, simbolismos, paixões… Eu passo, desta vez!
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quarta-feira, 25 de maio de 2011
ALÉM DA VIDA, ou sobre novas frequências.
ALÉM DA VIDA
(Hereafter, 2010)
Direção: Clint Eastwood
Quem nunca se perguntou o que acontece depois que morremos?! Seja o mais cético ou o mais crente, todos já se fizeram esta mesma pergunta: existe vida após a morte? Clint Eastwood, cineasta que passou dos 80 anos, também! Afinal, não é à toa que os trabalhos mais recentes do diretor foquem justamente tramas mais intimistas e abordem sobre a finitude da vida, como MENINA DE OURO, GRAN TORINO e CARTAS DE IWO JIMA.
ALÉM DA VIDA, portanto, deve ser encarado muito além de seus aspectos técnicos - que são falhos - transcendendo à um plano mais pessoal.
O roteiro de Peter Morgan acompanha três personagens que tem experiências ligadas ao plano espiritual. Marie Lelay, uma jornalista francesa, sobrevive ao tsunami que devastou a Tailândia em 2004, porém, por alguns segundos, ela teve uma experiência de quase-morte, enxergando um plano espiritual. A experiência deixa-a catatônica por alguns dias. Encorojada pelo namorado, esta decide escrever um livro - que a princípio seria uma biografia política, porém, torna-se uma pesquisa sobre provas incontestáveis sobre o Além. Em londres, Marcus e Jason, gêmeos, tentam encobrir a mãe viciada para que os agentes socias não a levem e os dois tenham que viver com outras famílias. Mas, Jason - que é o mais extrovertido e 12 minutos mais velho - morre num acidente de carro. Marcus vê-se sem o irmão "mais velho", e sem a mãe. A morte do irmão leva-o atrás de respostas acerca do que vem após a morte, consultando médiuns e videntes charlatões. Em São Francisco, George Lonegan, um operário do setor de construções, tenta ocultar um dom mediúnico genuíno. "Uma vida baseada na morte não é vida".
Embora o roteiro de Morgan contenha cenas sensíveis e bons momentos os montadores não foram eficientes em dar ritmo ao longa. Incapazes de costurar uma multitrama, o espectador é obrigado a acompanhar um personagem por longo tempo e num corte brusco mudar seu olhar para outro personagem, como uma trama novelesca. Flertando com o melodrama, Eastwood também patina em vários momentos. Tirando de cena, por exemplo, a personagem Melanie - Bryce Dallas Howard, encantadora - num chororô só. Faltaram conflitos reais. George foge de sua vida de médium com um trabalho comum, mas, ao ser demitido o perigo desfaz-se, já que o personagem vê nisso somente uma bela oportunidade de viajar. Marie também se vê sem emprego e seu editor diz que não comprará seu livro sobre espíritos, somente para voltar atrás e oferecer à ela ótimas oportunidades de publicação. Marcus após a morte do irmão e o envio da mãe para uma clínica de recuperação é enviado para o lar de uma família adotiva tão boa que ele pode sair à torto e à direita, sem represálias.
Mas os pontos fortes existem! a cena do tsunami é magistral. Eastwood coloca sua câmera no centro da devastação. Roland Emmerich, com sua porção de produções catástrofe, não foi tão eficaz em transferir o espectador para o meio de uma tragédia desta magnitude. Plasticamente impecável. Muito bem fotografado, mesmo que de forma quase perene em tons sombrios.
É o roteiro, infelizmente, que acaba se arrastando por algum tempo, cresce e diminui. Inconstante. Ainda assim, desperta o interesse. A trama afunila-se no terceiro ato, os personagens confluem para um mesmo local, quando poderão encontrar suas respostas e peças que faltantes. É um final simples, chega até ser piegas, mas, como eu disse antes, olhando além dos aspectos técnicos ALÉM DA VIDA é um filme tocante. A trilha sonora composta pelo próprio Eastwood merece ser apreciada. Usando dos temas da peça de Rachmaninoff (Concerto para piano, nº 2), para criar uma canção aveludada, melancólica, fluída. Aliás, é bom lembrar que não é a primeira vez que o compositor russo inspira uma trilha metafísica: em 1980 o compositor John Barry trabalhou em cima da Rapsódia para criar uma das mais belas e românticas trilhas do cinema, para o filme EM ALGUM LUGAR DO PASSADO (Somewhere In Time).
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MAKING OF: Confesso que gostei do filme, apesar das falhas mencionadas. Assisti-o completamente imerso. Na escuridão. Fones de ouvido. Só. Questionado, ontem, sobre minhas experiências mediúnicas e exorcismos eu mencionei à uma amiga que acredito que deva haver um estado preciso para que alguém consiga "comunicar-se" com qualquer força ou energia além da que conhecemos sensitivamente. O chef da aula de culinária que o personagem de Damon frequenta diz que cozinhar é uma experiência que envolve todos os sentidos, porisso, ele toca peças de ópera em suas aulas. Eu diria que a analogia serve também para a vida! O intelecto é importante, o dinheiro é imprescíndível no modelo social em que vivemos, mas, a apatia tem engolido cada vez mais as pessoas. Não estou aqui querendo defender uma teoria espiritualista, tampouco pagar de conselheiro zen… O que quero dizer é racionalizar tudo não resolve. É preciso estar aberto a outras "frequências". Se é que me entendem…
segunda-feira, 23 de maio de 2011
AS CRIANÇAS ESTÃO BEM
MINHAS MÃES E MEU PAI
(The Kids Are All Right, 2010)
Mais um bom filme da safra de 2010, com elenco bem afinado e direção acertada. MINHAS MÃES E MEU PAI usa da história nada convencional de irmãos adolescentes - Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson) - criados por uma casal de lésbicas - Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore) - que engravidaram através de inseminação artificial de um mesmo doador de esperma - Paul (Mark Ruffalo) - para compor um filme de gênero. E que gênero seria este!? O gênero de filme independente norte-americano, abusando do uso de famílias desajustadas, tragicomédias e fotografia mais crua, coloca-se no mercado como uma saudável - até agora - alternativa. Só para citar exemplos PEQUENA MISS SUNSHINE, A LULA E A BALEIA e já novo clássico OS EXCÊNTRICOS TENEMBAUS.
Num ambiente urbano periférico, o olhar da diretora revela cenas incomuns no cinema estadudinense; ainda assim, são cenas com muita luz, alvejadas, inofensivas. Mesmo no ambiente mais refinado da casa das mães, a luz se comporta de forma acolhedora, morna. Mesmo contendo cenas picantes de sexo - a maioria protagonizada por Paul - não está no file a intenção de chocar seu público. Por covardia ou por sutileza, o uso de temas como lesbianismo, inseminação artificial, sexo, adolescência, adultério, não são explorados no cerne. A grande falha do roteiro está em abandonar discussões que se levantam, mas logo evaporam e mesmo personagens que orbitam o elenco principal são lançados ao limbo sem dó, por mero capricho. O conflito que se inicia quando Joni, a pedido do irmão Laser, liga para seu pai biológico, sem o conhecimento das mães, poderia desencadear um mal-estar em série, porém, o clima de bem-estar permanece: vez ou outra surge um impecilho ao comodismo dos personagens, mas, um a um tais "impecilhos" vão sendo esquecidos, sem qualquer resolução.
O grande trunfo está no elenco! Bening entrega uma Nic que age como "homem da casa", controladora, sofisticada, com padrões altos de etiqueta. Jules tem todo olhar benigno de Moore; meiga, dócil, insegura e domada. O Paul de Ruffalo é o arquétipo do garanhão: Instável, suado, viril e péssimo com as palavras. O trio de atores carrega o filme. O caso sexual entre Paul e Jules, um tanto incoerente, mas aceitável (o ser humano é complicado, sim!), cria maior tensão do que as relações de Laser - que desinteressa-se por Paul - e Joni que enxerga em Paul a figura do pai-heroi. Afinação do elenco permite a emapatia do público. Cenas de embaraço e constrangimento costuram toda a trama. Existe uma aura adolescente e rebelde, também. Sempre que um personagem vê-se acuado foge, soltando um sonoro "fuck you". Imaturidade dos personagens que denuncia a dos roteiristas.
Mas, embora cheio de defeitos e irresoluto, MINHAS MÃES E MEU PAI ainda confere ao espectador momentos agradáveis diante da tela. Destaque tamém para trilha inspirada de Carter Burwell, compositor conhecido do cinema indie, grande parceiro e colaborador dos irmãos Cohen.
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MAKING OF:
Sem making of. Uma solidão agradável no quarto, madrugada fria, agasalhado nos cobertores. Fone de ouvido. Sem fazer nada…
sexta-feira, 20 de maio de 2011
U M A R E D E S O L I T Á R I A
A R E D E S O C I A L
(The Social Network, 2010)
Direção: David Fincher
Antes de mais nada, devo confessar que fui muito reticente quanto a este filme. Lembro-me de todos comentarem sobre e tudo o que me vinha à cabeça era a "beatificação" de mais um bilionário geek à la Bill Gates que - como o já mencionado - passou a perna nos colegas e tornou-se dono de uma das empresas mais rentáveis do mundo. Nem mesmo a corrida pelo Oscar incitou-me interesse. Foi só quando decidi confiar no prestígio do diretor David Fincher - responsável entre outros títulos pelos excelentes CLUBE DA LUTA e SEVEN - que, enfim, vi A REDE SOCIAL. Um ótimo filme. Mas, agradeço à mim mesmo por não tê-lo visto antes. À epoca de seu lançamento meu julgamento teria sido invariávelmente influenciado pelos meios de comunicação; muito mais no sentido de rechaçá-lo. Resquícios de uma rebeldia adolescente que vez ou outra, felizmente, vigora-se.
Não li a biografia de Mark Zuckerberg, portanto, pouco me aterei à ela. Sei o que todos sabem sobre o fundador do Facebook: é o bilionário mais jovem do mundo e foi alvo de diversos processos judiciais que colocam em xeque a maior rede social - virtual é bom que se diga - do mundo como idealização sua. Quem inventou o macarrão? Os chineses, mas… foram os italianos que popularizaram e aprimoraram a iguaria. Quem inventou o telefone? Grah-… ops… foi Antonio Meucci! Graham Bell só tinha a grana para pagar a patente. A lista de invenções creditadas àqueles que na realidade só as popularizaram é imensa. O interessante no roteiro de Aaron Sorkin é justamente o fato desta controvérsia servir apenas como pano de fundo, um fio condutor que conta uma história muito mais intimista: a história de um jovem solitário. E pode-se dizer que A REDE SOCIAL seja, antes de uma cinebiografia de um jovem que se tornou bilionário, uma 'cineradiografia' da solidão da juventude pós-moderna. Madrugada de sexta-feira - foi quando escrevi este post - e o Facebook está abarrotado de atualizações e comentários e uploads de usuários que estão sozinhos em suas casas, e, mesmo aqueles que agora estão em alguma balada ou evento social real carregarão suas fotos e vídeos para a rede virtual, um misto de concurso de popularidade e abafamento do sentimento que corrói o peito de muitos que atesta: estamos sós!
Zuckerberg tomando cerveja com sua namorada num bar universitário. Zuckerberg já é logo apresentado como um jovem inteligente, frio, e com uma grande preocupação em mente: destacar-se. Quando puxa assunto com sua namorada sobre a população de genios na China ele não está falando de antropologia ou qualquer outra discussão humanística e sim sobre ele próprio. "Como destacar-se?" Para olhares mais perspicazes não é difícil notar já de início esta obcecação de Mark. Obcecação essa que faz o personagem desdenhar das origens de sua namorada o que gera a revolta da garota que termina com Zuckerberg. Zuckerberg é imaturo. A atitude de Mark é a mesma de muitas pessoas hoje, extrapolar na internet. Blogando… Fuga. A grande vingança das pessoas hoje é a de excluir ou bloquear umas as outras de seus perfis virtuais. Lançar impropérios contra seus inimigos nas redes socias e sites de compartilhamento de informações. Os embates estão à um clique. É no Vale do Silício que ocorrem as grandes batalhas épicas hoje. A astúcia de Ulisses está naquele que melhor souber usar os recursos que a internet disponibiliza. É a grande odisséia tecnológica ! os 'fakes' são os mendigos de Ítaca hoje. OK, não vou me ater muito aos mitos. Muito embora as referências aos mitos nerds/geeks são muitas, seja a menção de séries de TV, filmes clássicos e hits dos anos 1980, video-games, músicas, bandas e até a trilha usada em M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF (1931), na cena da regata.
Mas, verdade seja dita, o longa de Fincher tem um frescor atual. Coloque aí a contribuição preciosíssima de Trent Reznor e Atticus Ross. A trilha casa muito bem instrumentos clássicos das composições de Ross unidos ao som eletrônico de Reznor, músico da banda Nine Inch Nails. É saboroso ouvir violoncelos irritados com um piano triste que conjurando notas high-tec, uma espiral crescente. A trilha parece impulsionar as imagens ao mesmo que esta parecem 'encorajá-la' ainda mais. Uma atomosfera fervilhante e intensa, como a solidão envolvente de um netbook conectado à internet. A edição é outro ponto forte. Os julgamentos são formas de dar voz à vários narradores. Costurando flashbacks com declarações "atuais", uma frase de efeito de um personagem do passado é proferiada pelo narrador do julgamento, retornando à cena do flashback, sem perder qualquer efeito dramático; na realidade, a técnica usada realça ainda mais o arco dramático da história. A fotografia é belíssima, unindo um quê documental às técnicas artísticas de iluminação, mostra-se natural mas foi engenhosamente fabricada para ser assim. A direção de Fincher é orgânica, cresce natural e sem exageros. O desenvolvimento dos personagens é tangível, assim como a evolução destes. Talvez o pecadilho cometido pelo filme seja uma visão muito indulgente de Mark Zuckerberg, que, de escroto, vai revelando-se aos olhos do público um garoto assustado que só queria magoar a ex-namorada.
O elenco está muito bem afinado e até Justin "*NSYNC" Timberlake está ótimo no filme. Mas, indubitávelmente é Jesse Eisenberg quem carrega o filme todo nas costas. São palpáveis os sentimentos de mágoa, solidão, desdém e uma ânsia por algo maior que o próprio personagem não compreende. O vazio o qual preenchemos com tudo o que não precisamos, em vão.
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MAKING OF:
Outro dia uma sagaz amigo meu disse à outro pelo telefone: "Estamos em outros tempos. Hoje se uma garota se irrita com você ou quer te 'mandar um recado' ela te exclui das redes socias…" - uma outra amiga minha não compreende como uma pessoa pode dar-se ao trabalho de ligar para outra e não falara nada quando esta atender… São tempos difíceis. Não se sabe mais o que as pessoas esperam de você, porque nem elas mesmas sabem o que esperar. Ouço que o desapego é a melhor solução. Mas, desapego do quê? Não sei. O que sei é que sim vejo as pessoas cada vez mais desapegadas umas das outras e apegando-se em contrapartida à outras coisas, muito mais efêmeras e descomplicadas. Sabedoria suprema ou fuga covarde? Também não sei dizer ao certo. Só acredito, no meu caso, meus bens mais preciosos ainda permanecem nas relações e vivências daqueles que amo, e daqueles com quem vivo, vivi e ainda viverei. Mas esse sou eu… Eu ainda sou meio à la Snufkin que crê que uma pessoa não deveria ter mais do que ela pudesse carregar.
terça-feira, 10 de maio de 2011
UM SILÊNCIO INCONFORTÁVEL
REENCONTRANDO A FELICIDADE
(The Rabbit Hole, 2010)
Direção: John Cameron Mitchell
Uma mulher cuida de seu jardim. Terra. Flores. Adubo. Mãos sujas. No rosto uma determinação grave, velando um cansaço, uma insatisfação… Uma mulher que carrega no peito uma dor de morte. Mas, se você entrou na sala de cinema sem ler a sinopse não terá isso jogado contra você de forma covarde. Esta aí o grande mérito do filme! o roteiro de David Lindsay-Abaire, baseado em sua peça, desenrola-se com naturalidade. Nunca apelando para os recursos do melodrama. Honesto, não tenta forçar o espectador às lágrimas (elas fluírão naturalmente). É como adentrar uma sala de desconhecidos, nota-se que há algo de errado, existe dor no ambiente, mas, o espectador conhecerá os motivos e as cicatrizes indeléveis, aos poucos. A trama inicia-se quando já fazem oito meses que o filho do casal - Becca e Howie - morreu atropelado. Mas o roteirista não coloca o casal logo de cara falando sobre a morte do filho. Há uma real preocupação de desenvolvimento e apresentação dos personagens, sem apressar o filme. É muito tangível o distanciamento do casal. Como torna-se visível as formas díspares que cada um lida com a dor da perda: Becca cria alternativas para apagar o filho da memória, pouco a pouco, livrando-se das coisas do garoto, evitando o assunto; Howie arrasta a mulher para um encontro de terapia em grupo, para pessoas que também perderam seus filhos, ele assiste todas as noites vídeos do filme no celular… Entretanto, fica claro desde o início que é justamente Becca quem mais sofre. Enquanto Howie tem uma dor passiva, enlutada; Becca é caustica, irascível, impulsiva, agitada.
Com diálogos preciosos e muito bem construídos - afinal o filme é baseado numa peça teatral - o diretor John Cameron Mitchell é muito seguro, criando tomadas contemplativas e pesarosas. O luto. A solidão. A perda. A desolação emocional impressa nas imagens não torna em nada o filme arrastado ou maçante. O esmero em aparar os exageros das atuações - tão comuns em histórias como esta - é louvável, Mitchell cuida de seus atores/personagens, resguarda-os. A edição flui enigmática, absorvendo o espectador sem confundí-lo: intriga. Enquanto a manufatura de uma história em quadrinhos é feita os personagens evoluem, transformam-se, digladiam-se, choram, sorriem - sim, pois o roteiro encontra um equilíbrio tênue: costurando cenas tragicômicas numa história de luto, culpa e dor. No segundo ato a trama praticamente divide-se, Becca e Howie saturados um do outro terão que encontrar saídas para o luto: Becca secretamente passa a encontrar-se com o rapaz que atropelou seu filho, por acidente e não por irresponsabilidade, amobos carregam o peso da culpa e será em conversas no parque, sobre universos paralelos e quadrinhos que ambos terão a chance do auto-perdão; Howie passa a manter uma amizade juvenil com Gaby (Sandra Oh) , membra do grupo de terapia, onde os dois saem para fumar maconha, jogar boliche e divertir-se, uma relação que pode pôr em xeque o amor de Howie por Becca…
As explosões de Becca com a irmã e mãe (Dianne Wiest, em poderosa atuação), são viscerais. Kidman está excelente, comedida e forte. Muda ou esbravejante, expôem um coração que sofre. Wiest é Nat: uma mãe que teve de sofrer a morte do filho viciado e do neto atropelado, vê a filha e o genro destruindo-se. Nat é o equilíbrio maternal, a sabedoria que só uma mãe ferida e cicatrizada pode ter. As melhores cenas do filmes são, indubitávelmente, protagonizadas por ela. Conversas no porão, separações das roupas do finado neto… olhares e expressões, ela diz tudo sem precisar dizer. Eckhart entrega um Howie perdido, sente a falta do filho, apaixonado pela esposa, quer "curá-la" à sua maneira, quer resgatar uma família que não mais existe. Sua coragem, amor e determinação serão testadas mais do que todos os personagens. Uma grande revelação também está no jovem Miles Teller, que vive o adolescente Jason que trás a culpa e o medo estampados no rosto.
A trilha composta por Anton Sanko é circular, minimalista. Entonações tímidas que não se sobrepoem às imagens - como é costume nos melodramas - mas caminha vagarosa com o filme. Introduz com leveza, assim como despede-se com carinho.
Não vou estragar mais a experiência, mas, apenas adiante que este REENCONTRANDO A FELICIDADE - título nacional horrível, que não condiz, como de costume, em nada com a proposta do filme - está no hall dos melhores encerramentos. Honesto, sóbrio e fluído, como uma reticência (…).
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MAKING OF:
Curioso como as coisas acontecem na vida real. Meu sócio, Bruno, e eu combináramos de ver um filme ruim pipoca (VELOZES E FURIOSOS 5), só para aliviar a tensão depois de um domingo de trabalho. Mas, foi nos demorando junto de nossos amigos, cantando "Raindrops keeps falling down on my head", do Burt Bacharah, que a sessões de VELOZES esgotaram-se e nos vimos, à contragosto, "obrigados" a ver o "filme com a Nicole". Não tínhamos ouvido nada sobre ele - nem o fato da atriz ter sido indicada ao Oscar por ele nós lembrávamos! - mas já havíamos definido ir ao cinema naquela noite. Jantamos. Falamos sobre roteiros, sobre tecnologia celular, sobre McDonald's ou Burger King comendo All Parmegiana, sobre amor impossível (o meu) e possível (o dele), sobre a distância dolorosa da família que mora longe, sobre sonhos e planos. Adentramos a sala desconfiados, saímos dela extasiados. Caminhamos. "Que final incrível! Que ótima surpresa! Vou baixar a trilha!" - Acompanhei-o até seu apartamento - concordamos com a inclusão de um novo sócio e o arco dramático de nosso grande "empreendimento" - faturei uma Heineken. Bruno, mermão! não por acaso… Voltei à pé pra casa, com os pés gemendo e o coração encolhido, como de costume.
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As explosões de Becca com a irmã e mãe (Dianne Wiest, em poderosa atuação), são viscerais. Kidman está excelente, comedida e forte. Muda ou esbravejante, expôem um coração que sofre. Wiest é Nat: uma mãe que teve de sofrer a morte do filho viciado e do neto atropelado, vê a filha e o genro destruindo-se. Nat é o equilíbrio maternal, a sabedoria que só uma mãe ferida e cicatrizada pode ter. As melhores cenas do filmes são, indubitávelmente, protagonizadas por ela. Conversas no porão, separações das roupas do finado neto… olhares e expressões, ela diz tudo sem precisar dizer. Eckhart entrega um Howie perdido, sente a falta do filho, apaixonado pela esposa, quer "curá-la" à sua maneira, quer resgatar uma família que não mais existe. Sua coragem, amor e determinação serão testadas mais do que todos os personagens. Uma grande revelação também está no jovem Miles Teller, que vive o adolescente Jason que trás a culpa e o medo estampados no rosto.
A trilha composta por Anton Sanko é circular, minimalista. Entonações tímidas que não se sobrepoem às imagens - como é costume nos melodramas - mas caminha vagarosa com o filme. Introduz com leveza, assim como despede-se com carinho.
Não vou estragar mais a experiência, mas, apenas adiante que este REENCONTRANDO A FELICIDADE - título nacional horrível, que não condiz, como de costume, em nada com a proposta do filme - está no hall dos melhores encerramentos. Honesto, sóbrio e fluído, como uma reticência (…).
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MAKING OF:
Curioso como as coisas acontecem na vida real. Meu sócio, Bruno, e eu combináramos de ver um filme ruim pipoca (VELOZES E FURIOSOS 5), só para aliviar a tensão depois de um domingo de trabalho. Mas, foi nos demorando junto de nossos amigos, cantando "Raindrops keeps falling down on my head", do Burt Bacharah, que a sessões de VELOZES esgotaram-se e nos vimos, à contragosto, "obrigados" a ver o "filme com a Nicole". Não tínhamos ouvido nada sobre ele - nem o fato da atriz ter sido indicada ao Oscar por ele nós lembrávamos! - mas já havíamos definido ir ao cinema naquela noite. Jantamos. Falamos sobre roteiros, sobre tecnologia celular, sobre McDonald's ou Burger King comendo All Parmegiana, sobre amor impossível (o meu) e possível (o dele), sobre a distância dolorosa da família que mora longe, sobre sonhos e planos. Adentramos a sala desconfiados, saímos dela extasiados. Caminhamos. "Que final incrível! Que ótima surpresa! Vou baixar a trilha!" - Acompanhei-o até seu apartamento - concordamos com a inclusão de um novo sócio e o arco dramático de nosso grande "empreendimento" - faturei uma Heineken. Bruno, mermão! não por acaso… Voltei à pé pra casa, com os pés gemendo e o coração encolhido, como de costume.
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quarta-feira, 4 de maio de 2011
MAGIA E CIÊNCIA
THOR
(Thor, 2011)
Direção: Kenneth Branagh
Elenco:
Vamos combinar uma coisa?! Quando você propôem-se à ver um filme de super-herói, baseado numa HQ da Marvel, que, por sua vez, foi baseada na mitologia nórdica, você não vai esperar toques de realismo e nem um filme estilo arte europeu, certo?!... Hum! Estando de acordo, podemos continuar com minha impressão sobre Thor, dirigido pelo shakespereano Kenneth Branagh - que entre outros trabalhos dirigiu e atuou em filmes como HENRIQUE V e a adaptação integral de HAMLET para o cinema - que visa cimentar ainda mais o grande projeto dos estudios Marvel que é OS VINGADORES.
Embora não seja um filme tão bem resolvido como HOMEM DE FERRO, o filme do deus do trovão cumpre seu papel de divertir e de trazer ao universo cinematográfico da Marvel a mitologia (e fantasia) que permeia as páginas dos quadrinhos. Ou você se esqueceu que super poderes - sejam tecnológicos ou radioativos - são invenções fantásticas?!
Após um prólogo que começa do nada, onde um grupo de cientistas caçadores de tempestades, liderados por Jane Foster (Natalie Portman), encontram um "estranho" no meio de um furacão, quando Foster pergunta-se "de onde ele veio" abre-se então a narrativa ambientada em Asgard, reino mítico nórdico, que, na trama, é apresentado como um planeta onde vivem seres imortais e poderosos que há muito tempo revelaram-se aos antigos vikings - estes tomando os asgardianos como deuses - para protegê-los contra os Gigantes de Gelo. Odin (Anthony Hopkins) subjuga os líder dos Gigantes do Gelo, Laufey (Colm Feore), reestabelecendo o equilíbrio entre os mundos (ou reinos). A batalha de Odin é quase que somente mencionada, com pouquíssimas cenas relevantes - vejo que muitos filmes tentam seguir o modelo deixado por Peter Jackson, em A SOCIEDADE DO ANEL, mas, falta-lhes coragem no momento da edição (e dos gastos com efeitos digitais) para debruçarem-se durante tanto tempo à um prólogo - destas, a qua mais dá peso à história é a rivalidade criada desde a infância entre Thor e Loki, filhos de Odin. A história avança até à coroação de Thor e é aí que Branagh dá seu grande toque de tramas palacianas, enquanto uma cerimônia gloriosa acontece, nas entranhas do palácio forças maléficas agem.
A criação de Asgard enche os olhos. Tomadas "aéreas" bem construídas, um design orgânico que mistura muito bem um clima mítico e alienígena - pode-se muito bem aceitar os asgardianos como deuses ou como raça alienígena meramente, embora a primeira opção prevaleça... - as viagens extraplanares são muito bacanas, compondo imagens icônicas como a de Thor viajando com seu martelo em punho, numa posição mítico-heróica (ok, eu sei que já usei muito a palavra mítica...).
Os protagonistas de Asgard tem bom desenvolvimento. Hopkins, com sua imagem (lá vem a palavra, de novo) mítica, iconográfica, e muito bem difundida no inconsciente coletivo, empresta à Odin tanto nobreza e ferocidade, como um ar de sabedoria plácida. Hemsworth cuidou muito bem do físico e é eficiente nas cenas cômicas e zombeteiras protagonizadas por Thor, consegue dar veracidade ao cárater arrogante e inconsequente do deus do trovão, porém, vê-se sua grande dificuldade nas cenas mais dramáticas, caindo no caricaturismo, sendo de certa forma bem estrionico até... É Hiddleston quem está à altura de Hopkins, no entanto. Conferindo à Loki um ar frágil, indolente e inofensivo. Loki é o deus da travessura nórdico, mas, achei acertada a opção do roteiro em não apresentá-lo como um versão nova do Máscara - o qual também é inspirado no deus, caso alguém não se lembre - ou um tipo endeusado de Charada (o vilão do Batman, pra quem não se lembrou também...). O Loki de Hiddleston é uma versão de Macbeth, mas, um Macbeth que tem a plena consciencia de que não ascenderá ao trono de Asgard ligitimamente. Os fãs de travessuras cômicas ficarão um tanto decepcionados, pois, as travessuras de tromóias de Loki tem um propósito certo, ele é um exímio enxadrista. Porém, os demais amigos de Thor e até sua própria mãe são meros extras... suas personalidades não vão além do que suas armas ou etnias - afinal, o que faz um samurai em Asgard??? - e tão somente o Guardião dos Mundos (ou Heimdall), merece crédito por sua aparição, seja por sua importância na trama, seja pela imagem icônica criada por sua armadura e figura do ator Idris Elba.
Após uma ação rebelde e irresponsável de Thor, Odin decide lançá-lo à Midigard (a Terra), sem poderes a fim de que o deus do trovão torne-se mais humilde. E é aí que o roteiro torna-se canhestro e percebe-se que a edição vai gradativamente "tesourando" segundos necessários para uma melhor avaliação da trama, da personalidade e evoloção dos personagens e da história. Voltando ao ínicio do filme, somos apresentados à equipe de cientistas Jane Foster (Portman, linda e visívelmente esforçando-se para conferir a Jane uma persona forte, determinada e ao mesmo tempo frágil e emocionalmente carente), Erik Selvig (Stellan Skarsgård em participação dispensável, com uma "atuação de muleta") e Darcy (um mero alívio cômico que poucas vezes funciona, realmente). Entra em jogo também a equipe da SHIELD, já apresentada nos filmes HOMEM DE FERRO 1 e 2, e no INCRÍVEL HULK.
No segundo ato predomina comicidade de Thor, sem poderes, tetando adaptar-se aos padrões da Terra do século 21. O roteiro costura tudo isso com as tramóias de Loki revelando-se me Asgard, e, esse sim é um personagem que acaba evoluindo.
Não vou estragar o filme. O filme seguirá o pacote Jornada do Heroi, com uma ou outra particularidade do universo Marvel...
A batalha de Thor contra os Gigantes do Gelo é bem construída e o universo cinematográfico dos super-herois talvez não via cenas de luta - falando especificamente desta cena - tão fantástica (usando de trocadilho) desde... Taí, nem sei quando...
O romance de Thor e Jane acaba tomando uma relevância além do necessário, mas, estamos falando de um romance com Natalie Portman...
Meu veredicto é que: sim Thor diverte! e, não, Thor não é um filme genial de arte indie norte-americano e o escambal!... Mas, até aí, nós estamos de acordo desde o trailer, certo?!
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MAKING OF:
Vi este filme com meu colega Gabriel Caropreso o qual odiou o filme. Mas, o que mais que agradou naquela noite não foi tanto o filme em si, mas, a boa experiência de sentir-me humano. Conversamos sobre assuntos diversos, Caropreso, e, acredite, colocar pra fora todas aquelas minhas angústias referente "that girl" foi importante para mim... Além do que, pudemos junto do Bruno Carneiro ver muitas "chaves"... Rsrsrs... Brunão, que bom que eu apareci pra te dar um direção, heim...
terça-feira, 26 de abril de 2011
O CAMINHO NECESSÁRIO PARA O DESCONHECIDO
A FONTE DA VIDA
(The Fountain, 2006)
Direção: Darren Aronofsky
Elenco:
Hugh Jackman
Rachel Weisz
Será que se vivessemos eternamente, digo, na mesma forma que conhecemos a vida meramente fisiológica, despida de qualquer aura religiosa e metafísica, faríamos melhor uso dela?... Pergunta sem noção....
Só disse isso por achar que o filme A FONTE DA VIDA, de Darren Aronofsky seja uma obra cinematográfica capaz de levantar tais questões.
Abrangendo três histórias que se passam em mil anos - cada uma tem 500 anos de intervalo, por assim dizer - usando de narrativa que costura muito bem os três tempos, cortando de uma cena organicamente, no sentido em que repetições de ângulos, círculos, um castelo que transforma-se num quadro, uma nebulosa que se mostra num tubo de ensaio... Aronofsky expõe a todo momento esta busca dolorosa e angustiada do ser humano pela vida eterna, seja qual for motivo para a mesma: em 1500 D.C., Tomás, cavaleiro da rainha Isabel, na Espanha, recebe a missão de encontrar a Árvore da Vida, para que sua rainha possa ter um trunfo contra o poder da Inquisição católica que assola seu reino; no ano 2000, Tom, um geneticista, luta contra o tempo para encontrar a cura para a doença de sua esposa, Izzy, argumentando que a Morte é uma doença e que ele achará a cura; em 2500, um astronauta viaja em direção à Xibalba, um nebulosa, a fim de fazer revitalizar a mesma Árvore da Vida, da qual ele próprio vive tirando-lhe alimento.
Uma fotografia dourada, imagens poéticas, e belas atuações de Hugh Jackman - que interpreta as encarnações de Tomás, Tom e o astronauta, conferindo à cada homem um personalidade única - e a sempre maravilhosa Rachel Weisz, que também confere à rainha Isabel e à esposa enferma Izzy, graça e ternura. Enquanto o homem é sempre retratado como portador de uma ansiosidade extrema a mulher é quem doa calma e sabedoria diante dos momentos mais sombrios.
Colocando seus personagens tão frágeis e efêmeros em contraponto à horizontes que enunciem o Infinito e o Sublime - tal como o cavaleiro diante da Árvore da Vida, o casal que discute na neve ao pôr-do-sol e o astronauta aproximando-se de uma nebulosa que também está morrendo - o diretor-roteirista prega a Morte como algo certo, necessário e até desejável. Tolice?... Eu não creio! Haja visto que mesmo as teorias mais céticas já provaram que toda matéria morta é reciclada pelo Universo.
Tudo tem um fim, para que haja um recomeço. Eterno retorno, ciclo da vida, evolução... Metafísica pura, eu sei! o fato é que A FONTE DA VIDA, apesar de sua carga mística, tem uma narrativa bem coesa - é só prestar atenção, pô!!! - e não decepciona na fotografia. Um espetáculo à parte é a trilha de Clint Mansell, que carrega a aura do filme.
"- Death is the road to awe!", a palavra 'Awe' em inglês tem sentido amplo, Comumente traduzida como medo ou temor, refere-se muito mais à um medo reverente, um respeito pelo desconhecido. E não quero parecer um reacionário dogmático, mas, acredito que perdemos muito desse respeito com o avanço tecnológico. Uma cura para a Morte?! não chego nem a me acostumar com a ideia do Botox...
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MAKING OF:
A primeira vez que vi este filme eu ainda morava em Limeira, interior do estado de São Paulo. Foi uma experiência sublime, fazia uma madrugada fria e me lembro que eu me martirizava com a ideia de ter que acabar com meu casamento. Não estou dizendo que o filme me motivou a divorciar-me, mas, abriu minha mente para a ideia da necessidade de um fim - uma morte, por assim dizer - para que um novo ciclo começasse. Revi várias vezes este filme, cada vez pirando mais do que a anterior nos diálogos e símbolos. Uma particularmente, deitado num colchão na sala de uma tia, na TV à cabo, vendo uma garota tendo sua primeira experiência com o filme. Minhas cenas favoritas são as que o 'conquistador' é assimilado pelas raízes da Árvore da Vida e a que o astronauta é desintegrado pela explosão estelar fazendo reviver a mesma árvore mítica. Lembrando de tudo isso, revejo minha posição atual, e, sei que isso é um ópio, mas, aceito a dor lacerante no peito como necessária para recomeço. Passadas em direção ao Desconhecido.
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quinta-feira, 7 de abril de 2011
MASTURBATION
Os puritanos que me perdoem o título, mas, o novo filme de Zack Snyder limita-se à isso: o diretor "masturbando-se" ao gritar o que sabe fazer. Se filmes como 300 e WATCHMEN foram bem-sucedidos foi devido aos seus roteiros. Se Snyder tem um talento nato para criar cenas exóticas e bacanas, há nele uma ausência total de capacidade para escrever um estória conexa.
SUCKER PUNCH é uma tremenda besteira! Um vídeo clip caro demais ou trailer muito longo, você pode escolher... O diretor quis usar de sua "influência" para gritar ao espectador suas convicções de vida, usando de garotas gostosas e brigonas para isso. Hunf... Gosto de garotas gostosas e brigonas, senhor Snyder, mas, espero sinceramente muito mais do que isso quando levanto a bunda para ir ao cinema, tipo um bom roteiro - sabe aqueles que fazem algum sentido - e não um monte baboseiras que querem ser levadas à sério...
Baby Doll é uma garota que após a morte da mãe se vê, junto com a irmãs mais nova, nas mãos de seu padrasto pervertido e ambicioso que deseja tomar a herança das irmãs e deflorar-las. O epílogo é bem construído, mas, aí mesmo já incomodam o exagero estilo video clipe musical, estilo Evanescence... Câmera lenta, música com velocidade alterada, estilo sombrio, composições imagéticas bacanas, mas, "interpretações" istriônicas e apelos desnecessários à tecnologia CGI....
Após matar a irmã, por acidente, Baby Doll (sim a garota só tem esse nome durante a porra do filme inteiro), é internada num manicômio só para garotas bonitas (que coisa, não!). Lá ela cria toda uma fantasia, num mundo surreal (como o subtítulo em português quer explicar, ou seria desculpar-se...), onde ela, Sweet Pea, Rocket, Blondie e Amber (sim, os nomes das outras garotas são tão ridículos quanto o da protagonista), com a ajuda de um mentor "interpretado" por Scott Gleenn, têm de executar missões perigosíssimas a fim de conseguir alguns artefatos que lhe possibilitarão a fuga do manicômio, ou bordel, como o local se apresenta na brisa da garota... =S Não vou negar: tais missões são um espetáculos aos olhos, ver uma ninfeta, com uniforme escolar japonês, debulhando três samurais demônios gigantescos é do caralho, mas... passada a cena, e conforme o filme desenrola-se torna-se decepcionate que uma cena tão bacana não serve de nada, até porque até que Snyder diga o contrário as garotas jogam (sim, como num game) no modo "deus", completamente invencíveis, seja contra um exército de nazis zumbis, seja contra um dragão fêmea puto da vida. Em paralelo a trama surreal Snyder tenta debilmente criar um enredo na "realidade", onde cada artefato do mundo surreal corresponda à um item furtado por uma das garotas e que colaboraria para uma fuga do bordel, ou da porra do manicômio, ou seja da sala de cinema, porque à esta altura o espectador só não saiu pois pagou uma nota preta para assistir esse filme picareta numa sala IMAX...
Personagens caricatos e risíveis, o próprio vilão torna-se um ser estúpido e raso... Ao final, Snyder tantará te convencer de que toda aquela paspalhada que você acabou de ver teve um sentido, uma coesão. O diretor vai começar a vomitar tudo pela boca de uma personagem, dará uma resolução preguiçosa à tudo e ainda se verá no direito de lhe aplicar uma lição de moral pouco antes dos créditos finais. E... se você estiver chorando de raiva (o que não é difícil...), não se preocupe, pois, mesmo com final trágico o diretor se viu no direito de colocar um musical de cabaré, protagonizado pelos atores, bem ao estilo de CHICAGO, nos créditos que encerram essa sessão masoquista (pelo menos para mentes pensantes, acima de 13 anos...).
Merecia ser melhor!
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MAKING OF:
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
O REI DA INGLATERRA E O SENHOR DE SEU DESTINO
O DISCURSO DO REI
(The King's Speech, 2010)
Direção: Tom Hooper
Colin Firth
Geoffrey Rush
Helena Bohan Carter
Embora tido por muitos dos meus colegas como um filme muito "certinho", com "cara de Oscar", não vejo em nada disso um motivo que desmereça-o. O DISCURSO DO REI pode até parecer um estória clichê, mas, até aí, dizer que um filme é clichê nos dias de hoje é cair na vala comum. E se a premissa não traga nada do que já não tenhámos visto, a direção correta e moderada - no melhor dos sentidos - de Tom Hooper e as atuações poderosas de Firth e Rush criam um belíssimo espetáculo, onde a amizade rompe barreiras sociais e traumáticas.
O roteiro baseia-se na história real do rei George VI, que era gago, e na sua relação com um homem chamado Lionel Logue, um terapeuta da voz. Numa epoca em que as transmissões de rádio levavam ao povo toda a notícia e os decretos oficiais, e, que, a Europa estava à beira do caos que foi a Segunda Guerra, um rei gago, certamente, não geraria muita confiança em seus súditos e em suas tropas. Longe do melodrama raso, o filme de Hooper desenvolve muito bem seus personagens, seja nas atuações, no roteiro e nos detalhes da produção - como a direção de arte e figurino. Muito bem construído, com pouquíssimas cenas externas, mas, que valem muito a pena - o passeio de Logue com o rei por uma praça britânica, histórica, numa manhã brumosa, o sol ainda tímido, e inúmeros figurantes, desenvolvendo-se num crescendo musical, evoluindo até uma carga dramática incrível... ufff... Para os que criticaram o Oscar de melhor diretor para Hooper, com certeza, não viram essa cena... - o filme foca justamente a relação destes dois homens tão diferentes.
George, nascido na família real, carrega desde pequeno o fardo de não poder falhar e mais do que isso não poder sair dos padrões ditos "corretos". Canhoto, foi obrigado a escrever com mão direita, com deficência leve nas pernas, aplicavam-lhe talas para "indireitar-lhe", sendo sempre caçoado pelo irmão mais velho e o próprio pai. George aceita sua função de mero coadjuvante, após a morte de seu pai, já que o direito do trono é de seu irmão mais velho Edward, porém, sua consciência é abalada ao ver que o irmão torna-se num péssimo rei, alheio aos problemas de Estado e da situação crítica em que a Europa se encontra. Sabendo que a decisão mais acertiva é a de reclamar o trono para si, mas, com a insegurança de que sua deficiência na fala faça-o falhar.
Lionel já é um homem prático, de origem muito pobre. Tentou ser ator, mas fracassou. Autodidata, tornou-se no melhor terapeuta da voz da Bretanha, usando técnicas teatrais em rapazes traumatizados com a guerra. Pai e marido dedicado, nota-se que os próprios filhos e a esposa não lhe enxergam um futuro promissor.
O embate entre esses dois será colossal, já que mesmo sendo da família real George só será admitido como paciente por Logue se seguir as regras de seu "reino", ou seja, seu escritório - um excelente trabalho da direção de arte de Netty Chapman, o mesmo responsável por outros trabalhos brilhantes em filmes como ORGULHO E PRECONCEITO, DESEJO E REPARAÇÃO e O BRILHO DE UMA PAIXÃO - será custosamente e aos poucos que Logue conseguirá penetrar nas raízes do problema de George, afrontando-o muitas vezes, com seus métodos nada convencionais e que de certa forma contradizem toda a educação ritualística (que visa muito mais evitar o embaraço, do que satisfação) a qual George recebeu durante toda a vida.
Não posso deixar de mencionar a contribuição do compositor Alexandre Desplat, que, infelizmente, por mera politicagem, não teve indicada sua trilha para o filme O ESCRITOR FATASMA (muito superior à esta), mas, que concede um força melódica à trama sem excessos. O uso do segundo movimento da Sinfonia nº 7 para o discurso real também é genial!
Colin Firth está fantástico, após trabalhos incríveis como em O DIREITO DE AMAR e BONS COSTUMES, é finalmente laureado com o Oscar. Acredito que o uso da voz na atuação é tudo, o finado Heath Ledger que o diga!... O papel de rei gago pode ser tido como uma alavanca para prêmios, considerando-se que este já seja um personagem interessante por natureza, porém, nas mãos de um ator qualquer, tal papel tornaria-se facilmente numa caricatura unidimensional. Não sentir aflição ao ver George não conseguir terminar uma frase, ainda assim, o espectador não duvida por um segundo de que aquele homem é gago mesmo e que alguma coisa muito traumática contribuiu-lhe para a gagueira.
Um fato curioso está numa cena em que o rei George VI, reunido com rainha Elizabeth e as princesas, assistem ao cine-jornal e veem Hitler conclamando os alemães. Uma das princesinhas pergunta ao pai: "O que ele esta dizendo, papai?", o rei é sincero em responder "Não sei! mas o que quer que seja, ele está falando muito bem". É frustrante notar que após tantos exemplos na História as pessoas ainda se deixam levar por discursos inflamados proferidos por idiotas, seja na política, seja nas reuniões coorporativas, seja nos plebicitos "engajados" de certas faculdades...
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MAKING OF:
Quando vi este filme era num sábado, ainda de férias, após ter sido chutado pela enésima vez por uma garota intelectual. Foi foda! busquei refúgio nos filmes. Fiz uma maratona que começou na Rua Augusta e terminou na Pompéia. Contabilizei quatro filmes num só dia: BRAVURA INDÔMITA, O DISCURSO DO REI, DESCONHECIDO e 127 HORAS. Não foi necessário, no entanto, nenhuma gota de café para aguentar tudo isso, afinal, tudo o que eu mais queria era desfalecer mesmo... É engraçado como este filme me fez voltar aos tempos de diácono. Os excercícios vocais, as multidões prontas para beber cada palavra sua… multidões que não fazem ideia da sua incapacidade de liderá-las, mesmo assim, ávidas para que alguém diga-lhes o que fazer, como agir, para onde ir. Embora aplicado aos meus estudos, à epoca, eu tive grandes dificuldades em vencer a barreira de minha educação indouta, meus erros comuns e básicos em discursos e homilias - já que eu crescera aprendendo a falar "errado". Não é agradável para mi lembrar de meus tempos no seminário, mas, orgulho-me de - se não fui coroado rei da Inglaterra - coroei-me senhor de meu destino. Até o limite que permite-me o Universo, claro!…
CADA SEGUNDO CONTA
127 HORAS
(127 HOURS)
2010
Direção: Danny Boyle
James Franco
Kate Mara
Amber Tamblyn
Um rapaz fica preso pelo antebraço à uma rocha, num abismo, por 127 horas, e, numa medida deseperada para sobreviver, decide amputar - sem anestesia - o próprio braço. Argh!!! Quem poderia fazer dessa história curiosa e bizarra um filme interessante? A resposta é Danny Boyle! Com seu estilo pop e ágil, Boyle consegue compor um filme emocionante e tenso. Fazendo-nos rir e chorar com o personagen Aron Ralston - baseado no homônimo da vida real, que viveu a experiência toda. Enquanto a REDE SOCIAL busca um retrato da solidão dos jovens pós-modernos que mascaram-se em sua redes sociais virtuais, holofotizando suas baladas e festinhas, numa necessidade virulenta por aceitação e popularidade, 127 HORAS, por outro lado, expôe aqueles, cada vez mais raros, com espírito aventureiro e indomado, que, buscam o contato com a vidal natural para sentirem-se vivos.
Aron Ralston é um desses que acredita que a vida real esta na natureza selvagem - sim, uma apologia ao longa dirigido por Sean Penn - e que anseia, na realidade, por estar só. James Franco empresta seu carisma e veia cômica ao personagem, criando um Rolston irresponsável e cativante. Não se importando em avisar à ninguém para onde vai ou atender a ligação da própria mãe antes de sair de casa, Ralston ri de seus próprios fracassos e obstáculos. Seu envolvimento com as personagens Kristi e Megan é rápido, porém, suficiente para deixá-las encantadas e convidarem-no para um festa, a qual elas já advinham que ele não aparecerá, dada sua personalidade evasiva e autossuficiente.
Com montagem frenética e a trilha pulsante de A.R. Rahman. O filme não tem pressa em colocar Ralston em confinamento, algo que o espectador minimamente informado já sabe que vai acontecer antes da sessão começar. Chega-se até a criar um clima de espectativa entre as pessoas na sala de cinema, que ficam murmurando "ai, é agora!...". Tudo parte do show!
Boyle transforma a história da luta por sobrevivência de um jovem em um filme sobre auto-conhecimento e balanço de vida. A ilusão da autossuficiência de Ralston cai quando ele se dá conta de que está preso, numa fenda na terra, numa área deserta, sem ter avisado à ninguém para onde ele iria. Entre os muitos flashbacks o mais emocionante é de longe o de sua ex-namorada, quando a garota pede a combinação para abrir o coração dele e Ralston banca o 007 e dizendo "-Se eu te contasse, teria que te matar!, -Mas você já está me matando!...", confessa ela.
Usando dos delírios causados pela fraqueza e desidratação do personagem, Boyle, orquestra muito bem as lembranças do personagem com suas miragens e pirações. Um abismo que torna-se palco para rememorações familiares e um cárcere, além do talk-show criado por Ralston. Mas, 127 HORAS não deixa de lado, no entanto, em momento algum a ameaça eminente de morte. As estratégias de Ralston para manter-se vivo e a corrida contra o tempo e a falta d'água - a medida deseperada de beber a própria urina - permeam todo o bom humor do filme.
A cena em que o protagonista decide amputar o próprio braço é chocante! Duas pessoas demaiaram na sessão que eu estava e aviso que, realmente, não é leve. Em close, Boyle retrata desde a quebra dos ossos até o impactante momento em que Ralston sofre ao cortar o nervo... É forte mesmo!
A grande mensagem de 127 HORAS está justamente na vontade de viver. Vendo pinturas pré-históricas nas paredes do canyon Ralston é colocado no hall da força de vontade humana. A vontade de viver, em que cada segundo conta!
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