O ESCRITOR FANTASMA (2010)
THE GHOST WRITER
Dir.: Roman Polanski
Ewan MacGregor
Pierce Brosnan
Olivia Williams
Tom Wilkinson
O novo thriller político de Polanski mostra que este mestre do suspense, grande pupilo de Hitchcok, está em ótima forma; mesmo tendo dado os últimos retoques de sua prisão domicilar, através de instruções à sua equipe. O roteiro, adaptado do livro homônimo de Robert Harris, escrito a quatro mãos por Polanski e o próprio escritor, nos enreda por uma trama em que nada é o que parece e perigo e morte são eminentes, mas, salpicado com humor ácido e sarcástico, repleto de insinuações que só farão sentido no último ato.
Um escritor fantasma (Ewan MacGregor), é contratado para finalizar o trabalho de seu antecessor, que foi encontrado afogado - numa morte pra lá de estranha - na "autobiografia" do ex-primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan), personagem inspirado em Tony Blair, já que o escritor, ex-acessor de Blair, ficou muito descontente com a participação deste na guerra do Iraque.
O mise en scène, sempre impecável, voyeurístico e enigmático; você não sabe se o que Polanski está lhe mostrando é mera brincadeira ou alguma pista para resolver o quebra-cabeça. Neste longa, entretanto, Polanski demonstra-se mais contido: pouca sensualidade, nada de pirações psicóticas; as personagens estão sempre ocultando alguma coisa, mas, tudo oculto na máscara humana cotidiana.
O anonimato do personagem de MacGregor é total, começa com uma brincadeira, todos se diregem à ele como fantasma - So, you're the ghost? diz o personagem de James Belushi; o próprio se autoridiculariza quando Adam Lang lhe pergunta quem ele é:_I'm your ghost! responde - já qua até o fim da película não ficamos sabendo seu nome. Há certas emulações de outros longas de Polanski, já que o ghost passa a ver-se intrínsecamente ligado ao seu antecessor, obrigado a não só ocupar seu cargo, como utilizar alguns de seus pertençes, como carro e quarto, similar ao que ocorre em O Inquilino (1976).
Sem pressa, o mestre franco-polonês nos engedra por uma trama bem elaborada, sem pirotecnias, essencialmente calcada na estória e nas interpretações fortes de seus atores; destaque para o fantástico Tom Wilkinson que sempre rouba a cena (vide "Conduta de Risco").
Curiosamente este feito de Polanski chega em hora tenebrosa. Assim como Lang, Polanski enfrenta um processo penal, graças à um crime praticado durante as filmagens de "Chinatown", quando drogou e abusou de uma garota na jacuzi de seu amigo Jack Nicholson. O caso se desenrola há anos e agora existe o empasse burocráticos se/quando Polanski será extraditado para os EUA, afim de enfrentar a justiça norte-americana.
Até que ponto a arte e o artista são ímpares? É curioso ver nos filmes do diretor como a sensualidade de jovens garotas é esquadrinhada, fazendo o mais puritano sentir um frio na barriga (pra não ser mais explícito!). Mas até aí tudo bem, quem em sã consciência não gosta de sexo!? Há protestos contra e à favor do cineasta. Seus aliados dizem que o artista não deve ser punido por algo já tão distante no passado (inclusive, a própria vítima, hoje já casada e com filhos - mas, certamente, por não querer mais a exposição vergonhosa e a lembrança do trauma escancarado e explorado pela mídia); mas, desde quando um artista estará incólume por sua genialidade às leis humanas e à própria moral e senso comum de justiça?
Polanski fugiu dos EUA após pagar fiança, até hoje ele não "pagou" pelo que fez! Sua prisão domiciliar dá vista para uma paisagem idílica, da qual muitos jamais verão mesmo em suas férias.
Eu, pra ser sincero, me questiono muito sobre o assunto. Como cinéfilo, gostaria que uma borracha fosse passada no passado e que o cineasta permanecesse livre para fazer novos e bons filmes; mas também sou pai de duas meninas, e, como tal, não posso fazer vista grossa ao crime de Roman.
Pode parecer fundamentalismo demais da minha parte, mas, um crime como o de Polanski não deve ficar impune, seja ele quem for. Sua arte permanece imaculada (o pecado de "Os Piratas" já foi expurgado!), agora o diretor deve sim enfrentar as consequências de seus atos, só esperamos que não da mesma maneira que o personagem de Brosnan (sem querer entregar a trama do filme...).
Um boa dica sobre a ética na arte pode ser vista no filme alemão "Mephisto", que se passa na Alemanha dos anos 1930, onde o ambicioso e apolíto ator Hendrik enfrenta o dilema de ter fama e dinheiro fazendo trabalhos de propaganda nazista.
Vide a própria cineasta alemã Leni Riefenstah, que dirigiu o magnífico - em sentido técnico - documentário "O Triunfo da Vontade", encomendado por Hitler e financiado inteiramente pelo partido nazista para vangloriar a suposta superioridade da "raça" ariana. Uma obra de arte admirida, estudada e copiada por muitos (o próprio George Lucas, criador de Star Wars, fez alusão ao filme no final do episódio IV da saga), mas, que não foi o suficiente para convencer o mundo, como alegou a diretora "não ter nada haver com sua própria ideologia".
E quantos outros... O mais trágico, e, porque não dizer curioso, é como casos assim atraem ainda mais a atenção do público. Charlie Sheen, acusado de espancar (de novo) a mulher teve os maiores índices de audiência em sua série de TV "Two And Half Men"... Michael Jackson, com denúncias mais do que provadas de pedofilia, impune, morre e volta a ser "santo"...
Os artistas são os novos deuses olímpicos. Assim como Zeus e companhia, estupram e matam, recebendo por tais atos maiores louvores e ofertas sacrificiais do que antes. É como se projetassemos neles nossos próprios desejos mais sombrios, que, divinizados por nossos ídolos, perdem a crueza (e crueldade) por estarem acima dos limites da justiça humana.
Talvez, não seja à toa que Polanski coloque em seu novo longa várias referências à mitologia e tragédia grega, como Jocasta, Perséfone e Ciclópes, só para citar alguns nomes. Não ficarei admirado se passarem a dizer que o estupro da garota na jacuzi foi "consensual", assim como o estupro da princesa Europa, perpetrado por Zeus.
Malditos sejam os deuses!!!


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