Depois de um longo tempo, me vejo com coragem para falar mais sobre LAVOURA ARCAICA, novamente. Foi lendo um poema de Baudelaire, que, rememorei o personagem André e uma de suas falas, das várias que me queimaram o coração. Já faz um longo tempo que tenho pensado sobre a natureza da minha angústia, deste pesar contínuo que espreme o coração e faz vazar a alma. Para analisar melhor minha própria tristeza e desespero pensei em André, que sofre da mesma patologia só que, como personagem de ficção, suas dores são muito mais lancinantes (como cabe ser em um personagem). É como se alguém com resfriado contemplasse um paciente com doença terminal, forçando-se a enxergar semelhanças em seus sofrimentos, buscando uma força cósmica e uma sapiência holística, para compreender a partícula que é sua vida no Todo universal.
No entanto, sob a tutela de um Anjo sem nome,
Embriaga-se de sol o jovem deserdado,
E em tudo o que ele bebe e em tudo o que ele come
Sempre encontra a ambrósia e o néctar afogueado.
E com a nuvem brinca e fala com a aragem,
Num dolente caminho a cantar se inebria,
E o Espírito que vai com ele na ramagem
Chora de vê-lo assim pássaro da alegria
O trecho do poema Bênção, me fala muito ao coração. O poema inteiro afigura-se para mim um tratado da angústia do “artista” – embora, eu não clame por tal título, e, como o personagem de Max Von Sydow em A HORA DO LOBO, filme do Bergman, acabo muitas vezes me confundindo como artista na busca de uma definição para as minhas inquietações – que sofre com a pena moral de suas idéias e atos e desejos (desejos, quase sempre, inconcretizados). Outro trecho, do mesmo poema, que me fala muito é este:
Sei que a única nobreza é a dor que mais nos doa,
Que nunca morderão nem terra nem inferno.
Preciso é, para haver minha augusta coroa,
Ordenar o universo inteiro e o tempo eterno.
Mas que pretensão é esta?! “Ordenar o universo inteiro e o tempo eterno”? Mas, não só. O artista vê como única nobreza “a dor que mais nos doa”, o que me remete a outra estrofe baudelairiana, do poema “Ao leitor”:
Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
Palavras duras! E sei que não são tais palavras que os milhares de leitores de Augusto Cury desejam ouvir, ou que os telespectadores da novela das 21horas anseiam ver seus atores interpretando, mas, tais palavras são terríveis até para os auto-proclamados intelectuais e artistas, àqueles que julgam-se acima da massa, aos “iluminados”. Afinal, que nobreza há em sofrer? Ter as cicatrizes e traumas como troféus áureos de nossa existência... Ora, não é isso o que as capas das revistas nos vendem, nem o que as palestras motivacionais do corporativismo nos pregam; a onda crescente do “evangelho da prosperidade” em muitas igrejas não só protestantes, como as católicas, e, cheguei até a testemunhar, adeptos de um neo-budismo materialista (?), onde os “fiéis” são encorajados a “determinar” a felicidade em suas vidas. Felicidade leia-se aqui prosperidade financeira e banquetes para os sentidos naturais, pouco ou nada se fala em transcendência espiritual (seja que conotação esta palavra tenha para cada tribo). Talvez, só a Arte e o Artista ainda se preocupem com isso: tocar o infinito. Chegando ao ponto de assumir que “viver é sofrer”, e, viver diante de um espetáculo hipócrita, que é a sociedade, torna a morte tão atraente, como assume Hamlet:
Oh, se esta carne rude derretesse,
E se desvanecesse em fino orvalho!
Ou que o Eterno não tivesse oposto
Seu gesto contra a própria destruição!
Oh, Deus! Como são gestos vãos, inúteis,
A meu ver, esses hábitos do mundo!
Que saída tem André diante de tal percepção: viver é sofrer e viver plenamente é sofrer mais? Ora, não nos esqueçamos que André é um poeta – não na pseudo definição de quem fabrica rimas, mas o poeta cardinalício e espiritual, o verdadeiro poeta, que faz a vida se tornar poesia e a poesia tornar-se sua vida, aquele que pensa e sente o Todo – e como poeta, André “em tudo o que ele bebe e em tudo o que ele come/Sempre encontra a ambrósia e o néctar afogueado”. É por isso que André é para mim o poeta vidente rimbaudiano. André é Baco, como eu já disse antes. Seu entusiasmo (do grego Enthousiasmos, que significa “ter o deus dentro”, ou seja, possesso por um deus) é rimbaudiano, quando André toma a própria irmã Ana como parceira sexual, e, fugindo de casa, experimenta os prazeres carnais ele está cruzando mais do que os limites morais humanos, ele está na ilegalidade cósmica, e, paradoxalmente, só assim tornarar-se-á “o profeta de sua própria história”. Veja o que Rimbaud escreveu em sua carta intitulada “O Poeta Vidente”:
“Porque Eu é um outro. Se o cobre acorda o clarim, nenhuma culpa lhe cabe. Para mim é evidente: assisto à eclosão do pensamento, eu a contemplo e escuto. Tiro uma nota ao violino: a sinfonia agita-se nas profundezas ou ganha de um salto a cena. Se os velhos imbecis tivessem descoberto algo mais que a falsa significação do Eu, não teríamos de varrer os milhões de esqueletos que, desde um tempo infinito, vêm acumulando os produtos de sua inteligência caolha, arvorados em autores! (...) Afirmo que é preciso ser vidente, fazer-se vidente. O Poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; buscar a si, esgotar em si mesmo todos os venenos, a fim de só reter a quintessência. Inefável tortura para a qual se necessita toda a fé, toda a força sobre-humana, e pela qual o poeta se torna o grande enfermo, o grande criminoso, o grande maldito, - e o Sabedor supremo! – pois alcança o Insabido. (....) Logo, o poeta é um verdadeiro roubador de fogo. Responde pela humanidade e até pelos animais; deveria fazer com que suas invenções fossem cheiradas, ouvidas, palpadas; se o que transmite do fundo possui forma, dá-lhe forma; se é informe, deixa-o informe".
Quando meus pais encaram meus dilemas e sofrimentos eles não o compreendem, minhas inquietações têm motivos alienígenas para eles, pois, como pessoas de ação, dirigidas pelo estômago, meus pais (como a maioria das pessoas), são capazes de entender que em um estômago cheio e saciado e num corpo vestido e abrigado do frio, com um bom emprego, possa faltar mais alguma coisa, senão as milenares obrigações com a sociedade. André é afrontado continuamente pelo pai, através de uma parábola contada à mesa sobre o valor da Paciência.
Na parábola, um homem faminto chega à casa de um homem rico, implorando por alimento. Com uma analogia a frase cristã “peça e ser-vos-á dado”, o homem rico convida o faminto à mesa, porém, para um banquete fictício. Segundo o pai, o faminto não ousa questionar o rico e passa a “atuar” no banquete, como se comesse e desfrutasse das melhores iguarias possíveis, “bebendo”, inclusive, de um vinho doce e sublime. Após o elogio do faminto ao vinho fantasioso, o rico e poderoso diz ter, à custa de muita procura, ter encontrado um homem de espírito forte e com a maior de todas as virtudes: a paciência. Por fim, o rico acolhe o pobre em sua residência e o faminto nunca mais sentiu fome ou sede, novamente... A parábola é encenada com Selton Mello (filho/faminto) e Raul Cortez (pai/rico). O que André, em frenesi, diz ao irmão Pedro é o que em seu íntimo gritava sempre que o pai pregava tal estória: “A impaciência também têm os seus direitos!”.
Os velhos – não digo no sentido literal dos idosos, mas daqueles apegados às velhas tradições e dogmas – olham para o verdadeiro artista e vêem-no como um “grande” vagabundo, ele é o é. É do momento de ócio que virá o conhecimento, mas a arte virá de um ócio laborioso, o poeta vidente, racionalmente, desregrara seus sentidos, degradará seu corpo e sua moral, para já em carne viva revelar o que precisa ser visto, ouvido, cheirado, tateado, saboreado e pensado (o pensar, este sentido cada vez mais atrofiado). Não prego um artista da fome, toda manufatura precisa de um ganho para subsistir-se, na realidade, não prego coisa alguma. E agora é hora em que o raciocínio começa a “tomar de assalto a festa” do sentimento.
Só quero dizer que o que me flagrei pensando hoje é que os poetas da alma – a estes chamo as pessoas que ainda não caíram no coma profundo da indiferença ignorante ou da soberba intelectual - devem ter a plena consciência de que sempre sofrerão, e, que, se afogarão em seus rios metafísicos, pois eles são rios de Heráclito – nunca são os mesmos – e seja por escolha ou por essência imutável, clamo para que continuem a sofrer, tendo por bálsamo que, nas palavras de Drummond de Andrade, “amar se aprende amando” e é imperativo cobrar os direitos de nossa “impaciência”, tomando de assalto a festa, não nos acovardando diante da foice que ceifa o gozo, nem nos negando ao jogo da amarelinha da vida, sabendo que a Vida esta no percurso, não no início, não no final, no percurso circular e eterno. Viver compreende fantasia dolorosa e realidade inefável, conquanto não se viva apenas uma outra.
LAVOURA ARCAICA
2001
Luis Fernando Carvalho
Selton Mello
Raul Cortez
Simone Spoladores
Leonardo Medeiros

Nenhum comentário:
Postar um comentário