Demorei muito pra ir ver o filme VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO. E este é um daqueles filmes que você se pergunta: "por que eu não vi antes?" Achei curioso que todos os livros sobre fazer cinema que leio, entrevistas com mestres como Bergman e Kurosawa, ditam que para todo filme é necessário antes um roteiro, que, servirá de espinha dorsal para o mesmo. Em contrapartida este longa de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz surgiu de um ímpeto dos dois, junto com uma pequena equipe, na companhia da diretora de fotografia Heloisa Passos, de filmar, perder-se na aridez, submergir-se no sertão, isso ainda em 1999.
Somente em 2009, o projeto tomou forma. Fazendo nova viagem ao sertão, filmando em formatos diversos (Super 8, 16 mm e vídeo digital, além do uso de fotografias), criaram o personagem do geólogo Jose Renato (Irandhir Santos), que, em missão de pesquisa de campo para a viabilidade de uma transposição de um rio, analisa rochas, terrenos áridos, bem como, personagens os quais encontra em sua jornada.
Separado de sua mulher, Jose Renato inicia uma narrativa melancólica, triste, saudoso da amada, invejoso dos casais apaixonados que vê pelo caminho. Ainda esperançoso, ou autoiludido, da possibilidade de reatar o casamento e a vida com a ex-esposa, seu discurso é romântico e lúdico.
Jose Renato chega à um ponto, porém, em que a ilusão amorosa não lhe faz mais sentido. Chega a afirmar que tudo chega ao fim, inclusive o amor. Passa então a flertar e transar com várias prostitutas, de beira de estrada, e, é de uma delas que temos o momento mais tocante da fita. VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO não é mera ficção, nem mais um documentário também. Realidade e ficção casam-se perfeitamente no filme. Em um depoimento, a prostituta Paty, que, não sabe nem dizer exatamente o lugar onde faz ponto, alega querer uma "vida lazer".
Vida lazer, segundo Paty, é ter um amor reservado - no sentido de exclusivo - para ela. Ter um lar, uma família, "é poder voltar pra casa e saber que ele estará lá, me esperando..."
Talvez o uso de canções bregas incomodem alguns, mas inegável a sua contribuição à narrativa. A narração de Jose Renato - que nunca chega a aparecer na tela - ora bucólica e aborrecida, ora sarcástica e maliciosa, será o fio condutor do início ao fim. Tudo o que vermos será filtrado por ele, será tudo a sua visão.
A metalinguagem, entre roteiro, o real, imagens em Super 8, dá uma atmosfera poética ao filme, efeito que não seria possível simplesmente filmando em HD. Provando que ainda há espaço para arte no cinema. O road movie nos emociona também com imagens tão prosaicas quanto exóticas; um porco posando para câmera à beira do asfalto, dois cavalos fantasmagóricos atravessando a pista, e, mesmo as imagens com narração voice over, como a do colchão de chita, secando em terreno árido, semi-desértico, símbolo do casamento acabado.

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