Depois de escrever sem rédeas este post, ao lê-lo, notei que fugi muito do tema principal do filme no fim das contas. Não houve como falar de INTERIORES sem não revelar os principais incidentes do roteiro – não leia caso prefira se surpreender com o filme – a primeira parte é mais concisa e analítica a segunda são devaneios de um escritor ocioso, portanto, ignorem a segunda parte e assistam o filme de Woody Allen, ao invés de ler este post pedante.
INTERIORES
(INTERIORS 1978)
Dir.: Woody Allen
Diane Keaton
Geraldine Page
E.G. Marshall
Kristin Griffith
Maureen Stapleton
Avançando na obra de Woody Allen, decidi ver seu primeiro filme “sério” (como a crítica gosta de catalogar). INTERIORES foi produzido em 1978 e, para minha surpresa, não conta com a atuação do cineasta. É um daqueles filmes que já de início você pensa: “esse vai ser difícil!” Arrastando-se no primeiro ato, com diálogos pouco interessantes (em minha humilde opinião), o roteiro só toma fôlego depois de uns 30 minutos, ou seja, assim como DOLLS, de Takeshi Kitano, espere um pouco mais para ver no que dá. Sendo bem sincero, a regra vale para muitas das ditas obras-primas do cinema, em especial para os dramas europeus.
A catástrofe familiar de INTERIORES tem seu epicentro na personagem Eve (Geraldine Page), uma designer de interiores, que, metódica e controladora não só em suas decorações, mas, principalmente, na vida de sua família, é abandonada por seu marido, Arthur (E.G. Marshall). Com a separação, Eve acaba atormentando ainda mais a vida de suas três filhas adultas. No trio das irmãs temos: Renata (Diane Keaton), uma escritora de sucesso, Flyn (Kristin Griffith), uma mulher indecisa em tudo e Joey (Marybeth Hurt), uma atriz iniciante. O tormento aumenta quando o pai anuncia que esta apaixonado por outra mulher (Maureen Stapleton) e que irá se casar com esta; fazendo aqui uma sinopse bem simplista.
Já tinha ouvido falar sobre a admiração de Woody Allen por Bergman, posso então dizer, sem medo, que este é seu filme berguimaniano. Os dois cineastas demonstram grande interesse em investigar os medos e agruras humanas, geralmente sob a ótica feminina. Talvez, arrisco, pelas mulheres sintetizarem muito bem o que há de mais humano em nossa espécie, como mães afetuosas e como guerreiras tenazes, e, mais do que isso: as mulheres são as mais próximas da autossuficiência que nossa espécie poderá alcançar. As mulheres parecem ter – me perdoem a ousadia – uma capacidade nata para manipulações e sortilégios. Se olharmos para as melhores estórias, todas elas, talvez com raras exceções, tiveram uma motivação e/ou páthos ligada ao sexo feminino: Ilíada, Romeu e Julieta, Medéia, Paraíso Perdido, Antígona, Persona, Gritos e Sussurros, só pra citar algumas. E Woody Allen criou personagens femininas memoráveis neste INTERIORES.
Geraldine Page soube imprimir a frigidez insuportável de Eve, com grande ajuda da caracterização do figurino e maquiagem, mas, sobretudo, com seu olhar indiferente, pela solidez de seu rosto e por sua voz e gestos anafrodísios. Obcecada pelo trabalho, Eve quer ser a designer de sua família, censurando e manipulando cada ato, estendendo seus tentáculos até mesmo a impor o tipo de colônia que o namorado da filha Flyn deve usar. Seus presentes são ofertados para agradar não o presenteado, mas ela própria; querendo em tudo “doutrinar” aqueles à sua volta. Ironicamente esta designer de interiores olha apenas para a “fachada” de sua família, alheia aos sentimentos e frustrações dos seus. Não sou muito do tipo de me convalescer com tais personagens, são trágicos e humanos, mas, na vida real são intratáveis e asquerosos, portanto, crio já de cara uma antipatia aos mesmos; assim como o foi quando vi UM ESTRANHO NO NINHO e não pude deixar de odiar a enfermeira-chefe do sanatório. Eve consegue ser fria e manhosa, vitimizando-se, tiranizando suas filhas e o marido, acreditando que poderá controlá-los como peças de decoração, para que ornem devidamente com seu carpete; quando as coisas não saem à sua maneira o que esta mulher faz é choramingar como uma criança mimada.
Arthur é o arquétipo do “pai banana” – me perdoem o termo esdrúxulo – um homem que parece ter passado a vida se escondendo no trabalho, ciente de todos os traumas e imposições insalubres de Eve às filhas, e a ele próprio, porém, covarde ou simplesmente vendo-se impotente diante da situação, não fez absolutamente nada. Ele é um homem que vêm ensaiando seu divórcio há anos, sonhando com o dia em que poderá deixar sua odiosa esposa; algo que faz durante o café da manhã, como um ator que não decorou direito as falas ou um filho que não tem como dizer que sairá de casa. Arthur não é, entretanto, um mau pai. Tudo indica que há nele uma preocupação com o bem-estar de suas filhas, ajuda-as financeiramente, quer o melhor para todas, perturba-se com a falta de direção de Joey. Pensando bem, é este personagem abobado quem estremece a família para que todas, mãe e filhas, despertem para o problema chamado Eve. Sua atitude de separar-se de Eve, e, meses depois, de divorciar-se definitivamente para casar-se com outra mulher – uma viúva de bem com a vida, vivida primorosamente por Stapleton – fará as filhas colocarem xeque suas certezas, elas esperavam que o pai voltasse para a mãe, não para serem um casal romântico, mas apenas para apaziguar a crise depressiva de Eve. As filhas querem os pais juntos para livrar-se da mãe.
Renata, vivida por Keaton, é a embaixatriz da família, mediando conflitos, colocando pano quente sobre as reclamações da mãe, acalmando as irritações crescentes da irmã Flyn. É pela ótica de Renata que vemos o filme. O espectador atua como psicólogo de Renata, já que Allen nos convida à isso: o diretor usa várias cenas com a câmera em plano subjetivo em que Renata desabafa para o psicólogo, em um consultório, mas não se vê o analista, pois, você é o próprio. Renata é filha com maior sucesso em sua carreira, tendo se tornado numa escritora de sucesso. Mas não cama de rosas para Renata. Seu sucesso e brilhantismo criaram uma crise em seu casamento, já que o marido machista, um escritor fracassado, sente-se diminuído pela figura titânica da mulher. O marido de Renata chega a culpá-la por seu fracasso, já que ela acabou elogiando-o demais, apoiando-o, ao invés de dizer-lhe a suposta verdade de que seu livro era um fracasso. É desgastante ver a discussão do casal, onde Keaton tenta, em vão, convencer o marido de seu brilhantismo, dizendo-lhe que seu livro é bom, embora não tenha sido reconhecido. A briga avança até o ponto em que Renata, para defender-se, lança na cara do marido sua superioridade e capacidade produtiva.
Joey é a caçula, queridinha da família, alvo de inveja das irmãs por sua beleza e jovialidade, mas, motivo de preocupação de todos por ser supérflua e “metida a artista”. Quanto às suas aspirações, a irmã Renata confidencia ao marido, que, “Joey tem as inquietações necessárias, mas falta-lhe o dom pra coisa”. Joey não aparenta preocupar-se com a situação da mãe, desconhece as crises existências das irmãs, sua monomania é ter a beleza “eternizada em celulóide”, desprezando um papel que conseguiu por este ser para a TV. Joey tentará auto-afirmar-se com sua beleza, ela sabe o efeito magnetizador de seu corpo, usando seu charme com seus cunhados. O marido de Renata cede a esses flertes, Joey pode pensar que superou a irmã – a velha disputa feminina, acirrada pelo laço fraterno, de quem é melhor que quem – porém, seu cunhado revela durante o assédio, bêbado, que transará com Joey justamente pelo fato dela ser “inferior” à Renata – “faz muito tempo que eu não transo com uma mulher menos inteligente do que eu” – Joey acabará por rechaçar o cunhado, mas, por culpa mútua não revelará o fato à irmã.
Chegamos então a Flyn. Flyn é o alter-ego de Woody Allen. Ela é aquela que “quer fazer alguma coisa da vida” (e quem não quer?). Flyn é aborrecida, não consegue se decidir por uma meta ou caminho a tomar, questionando-se sempre se estará tomando a melhor decisão – usando sempre de uma projeção futura, do tipo: se eu fizer isso, sacrificarei aquilo – ela é quase uma personagem do subsolo dostoiévskiano. É Flyn quem acredita que Renata deva ser mais dura com a mãe, contando-lhe a verdade de que, provavelmente, o pai não voltará para casa; será Flyn, paradoxalmente, quem se irritará com o pai quando este informa sua intenção de casar-se com outra mulher. Flyn odeia Eve, não suportando-a por suas manias, mas, não consegue aceitar a madrasta justamente pelo fato desta ser tão diferente de sua mãe.
É cômica a cena em que reunidos pai, irmãs, cunhados e madrasta, todos discutem uma peça de teatro que acabaram de ver. Cunhados e irmãs filosofam sobre as dualidades de um personagem delator, sobre a tragédia de ser mal. A madrasta solta: “-Eu não vi nada disso! O cara era um delator dedo-duro e merecia morrer”. A personagem interpretada com primor por Maureen Stapleton é justamente o oposto de Eve, por ser prática e extrovertida, brincalhona e sensual, e, nada ligada a arquitetura ou artifícios humanos de beleza: “-Viemos da Europa e eu já não agüentava ver aquelas igrejas antigas e ruínas de civilizações desaparecidas, mas, posso ficar sentada ao sol, numa praia, por uma semana inteira”. Não quer dizer que a personagem de Stapleton seja insensível, apenas tenta encarar as coisas pelo “bright side”, extrair o melhor da vida. Queria ser um pouquinho como ela!
A maior parte da ação toma lugar na casa de praia da família. Já estraguei muitas das surpresas – se você leu sem ter assistido ao filme antes – mas, o filme termina com uma tragédia, que, no fim das contas, acabará trazendo paz a família. O mar revolto, mostrado por Allen durante todo o filme, se acalma repentinamente. No final do filme existem muitas feridas abertas ou mau cicatrizadas, porém todas olham pela janela e concordam: “-Que paz!” E é justamente por paz que procuramos e, ao mesmo tempo, corremos dela. Já que Nietzsche já pregava que não amamos o objeto desejado mas o desejo em si, a pessoa que tanto nos causa dor de cabeça hoje, quando distante ou morta, não se afigura tão ruim assim. Nós todos parecemos ter fome destas mentiras apetitosas de auto-engano, alguns vitimizam-se diante de tudo, outros vilanizam os demais, há aqueles que se vêem como heróis; eu vejo que somos todos diretores déspotas, distribuindo personagens e forjando “nosso real”, criando nossas próprias tragédias e comédias (alguns se arriscam em epopéias), porém, essa subjetividade excessiva esta levando o mundo pro buraco.
Está na hora de ‘sacarmos’ a importância do outro. É muito poético este diálogo interior de vontades, tão apregoado e canonizado desde o modernismo, mas, para conhecermos a nós mesmos precisamos do outro. É em contato com a humanidade que, por definição, nos tornamos humanos. A arte e cultura nos darão “novas formas de pensar”, porém, o laço com o natural não pode ser ignorado. É tão importante saber como era a sociedade do século XIII, ao visitar uma igreja medieval, quanto manter contato direto com o mar e a areia presentes; não nos esquecendo que estaremos sempre no presente. Enquanto Flyn questiona-se sobre como poderia ter sido ou como poderá vir a ser, sua madrasta diz que tudo o que podemos fazer é escolher. Da minha parte, entendo que para uma escolha mais “acertada” é necessário que ela seja consciente – ficou meio vago, eu sei (lembrem-se que não sou filósofo) – mas, o que quero dizer é que precisamos entender que podemos ser indivíduos em um meio coletivo, e, antes que me chamem de socialista, assim como o rio de Heráclito, ninguém nunca será o mesmo pra sempre. Como diria Rimbaud: “Je sui un autre”.

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