Banco de dados:

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

DOLLS (2002)
(Dōruzu)
Dir.: Takeshi Kitano
Miho Kanno
Hidetoshi Nishijima


O filme de Takeshi Kitano para um espectador ocidental não é uma peça fácil de ser apreciada – assim como qualquer filme “puramente oriental” – já que nos acostumamos a ver filmes de Kurosawa, o mais ocidental dos diretores japoneses. É necessário um olhar virgem, desvinculando-se dos maneirismos ocidentais, abrir-se por completo ao novo que se vê. Mas, mesmo para os não-cinéfilos – os puramente apreciadores da sétima arte – vale dizer, que, vencidos os trinta minutos iniciais, DOLLS, produção de 2002, é um verdadeiro espetáculo para os sentidos.

Em DOLLS, Kitano exercita muito bem as pluralidades do cinema, com uma ótima dramaturgia, muito diferenciada da que estamos acostumados. Contado como uma fábula moderna. Matsumo e Sawako são um casal jovem, noivos, mas, por uma oposição da família de Matsumo, por uma conveniência social, este abandona sua noiva para casar-se com a filha do chefe, o que lhe trará riqueza e prestígio; ocorre que Sawako, rejeitada pelo amado, enlouquece. Quando Matsumo descobre sobre o estado de sua amada, abandona a cerimônia de casamento, indo ao encontro de Sawako; tenta, em vão, trazer-lhe a lucidez novamente. Matsumo decide então atar-se, literalmente, a sua noiva e perambular com ela pelo Japão. Os dois ficam conhecidos como os “mendigos amarrados”.

DOLLS já abre com um teatro de bonecos japoneses, encenando uma estória trágica. A tragédia e a obsessão serão os temas centrais. O casal de mendigos esbarrará em vários outros personagens, que, como eles, estão ligados a uma pessoa amada, sem qual não conseguem prosseguir. Há uma teatralidade na forma de interpretação, mas não aquela exagerada, muito comum em seriados nipônicos que nos chegam. O elenco de DOLLS parece um grupo de moribundos. São autômatos sem mestre, títeres com a corda arrebentada. A morbidez humana é compensada com as cores vivas da natureza, a phýsis, dando sopro de vida aos ofegantes.

Pode ser que muitos se sintam incomodados com o tom fabuloso. Creio que o mesmo seja necessário, pois, os meros naturalismo e realismo tornaram-se obsoletos na hora de se expor dramas românticos. Muitos acharão exagero que uma determina personagem continue a levar o almoço para seu amado no parque, anos a fio, sem que ele esteja lá, pois ela prometera-lhe que o faria. Entretanto, não é anormal encontrarmos uma mulher obcecada por um homem, servindo-lhe favores de puta, enquanto este lhe faz falsas promessas de casamento ou, pior ainda, de amor eterno. Seria tão absurdo ver uma pessoa autoflagelar-se fisicamente por comiseração à dor de quem se ama, quando vemos tantas pessoas vivendo um flagelo emocional, aprisionadas, anulando-se, por “amar” uma outra pessoa muito mais do que a si próprio.

 

O último ato é mágico! DOLLS é um filme poético e sensível aos sofrimentos humanos como poucos no cinema atual.
 
 
 
ORIGINALMENTE POSTADO EM FÁBULAS COTIDIANAS, com os seguintes comentários:
Dani disse:
esse filme é uma das mais marcantes experiencias que já tive com relação à cinema! Sinto que os seres humanos são literalmente colocados como bonecos de um teatro, sendo manipulados por fios invisiveis que os conduzem de forma errante por entre as quase tres horas - ou mais, nao lembro - de filme...uma experiencia de tirar o folego.
Dani disse:
e no final nao somos todos bonecos, conduzidos por fios invisiveis que podem nos levar à ruina...?


Nenhum comentário:

Postar um comentário