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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

DESEJO E REPARAÇÃO
(ATONEMENT)
Dir.: Joe Wright

Keyra Knightley
James McAvoy
Saoirse Ronan
Romola Garai
Vanessa Redgrave




Lembro-me de quando eu era criança minha mãe censurou, certa vez, minha “língua solta”, dizendo que eu deveria tomar mais cuidado com o que contava às pessoas; ironia da vida, ou não, uma semana depois dela dizer isso, eu espalhei um boato na escola de que os pais de um colega de classe estavam mortos e ele era criado pelos seus avós. Robson, acredito que fosse seu nome, quando soube, quase me arrebentou a cara na quadra da escola, no intervalo, tendo todos os alunos da pequena escola interiorana como platéia. Eu aprendi ali a minha lição. Nada de ser um “boca aberta”, de novo.

Neste filme dirigido pelo competente Joe Wright (de ORGULHO E PRECONCEITO), adaptado por Christopher Hampton do livro de Ian McEwan, a personagem Briony Tallis sofre com o remorso de ter interpretado mal um cena que viu no passado, despedaçando a vida de um casal apaixonado. Logo de cara o design da produção revela-se estupendo, um filme poético, imagem, som, música e interpretação, todos os elementos unem-se perfeitamente em favor da narrativa.

Repare no som cristalino em que um trago no cigarro é perceptível, o zumbindo de uma abelha, até a luz parece ter som. A trilha sonora é crescente, usando de elementos de som como a máquina de escrever e folhas de papel para dar o tom ficcional.

Enquanto casais românticos de filmes recentes tais como QUERIDO JOHN ou a própria saga CREPÚSCULO mostram seres unidimensionais, perfeitinhos demais, melodramáticos, os quais você já sabe que vai dar tudo certo, em DESEJO E REPARAÇÃO, com o casal Robbie Turner (McAvoy) e Cecília Tallis (Knightley), a coisa é diferente. Um amor romântico impossível, um casal separado por uma calúnia, vidas estilhaçadas pela guerra, clichês que se tornam verossímeis, nas mãos hábeis dos escritores-roteiristas.

O momento que mais me impressionou no filme foi a cena em que Robbie e seus colegas chegam à praia onde o exército britânico está reunido. Isso se dá à uma hora e quatro de filme. O longo plano seqüência, sem cortes, usando em alguns momentos de ângulo 360º é um dos mais belos que já vi. Não só pela cenografia dos milhares de extras, o terreno acidentado e arenoso, o pôr do sol ao fundo (a luz natural não pode ser controlado e tem seu próprio tempo de duração), o uso de animais e máquinas, coisas pegando fogo, tomou da produção um dia inteiro de ensaio e três takes inteiros para ficar pronta – o cameraman desmaiou no quarto take - segundo o comentário do diretor; a cena é cinema puro. Incrível!

 
O ato final é revelador. Onde não existe uma solução fácil, o público saiu do filme com um gosto agridoce na boca. É o caso da estória dentro da estória, e, de como a própria história é relativa. Podemos até inferir que não há nada mais falso que a historiografia... Os historiadores que me perdoem, mas, história é estória, no fim das contas. Tomamos algo por verdadeiro simplesmente por que foi escrito como sendo verdade. Só pra citar outro filme, que satiriza isso, é O PEQUENO PRÍNCIPE, na cena em que ele encontra o historiador, que, quando perguntado sobre a Verdade, diz: "Verdade, o que é isso? Como se escreve?". Mas, diariamente, nós fabricamos a nossa própria verdade; o dito popular “quem conta um conto aumenta um ponto” tem sua razão de existir.
 
ORIGINALMENTE POSTADO EM FÁBULAS COTIDIANAS


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