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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

TODOS PRECISAM DE OVOS!

NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA
(Annie Hall)
Dir.: Woody Allen
Woody Allen
Diane Keaton




Nunca fui fã de Woody Allen. Minha primeira tentativa em assisti-lo foi ainda na adolescência, na década de 90, já nem me lembro com qual de seus filmes. Mas como eu poderia ter gostado? Allen é explicitamente para um público “intelectualizado”, público este que o diretor satiriza de forma tão inteligente, que, eles não ficam nem aborrecidos, ao contrário, adoram-no por isso. Na primeira vídeo-locadora que trabalhei ouvia opiniões muito polarizadas sobre o diretor: ele é chato, seus filmes são um porre, só crítico pra gostar do que ele faz, blá, blá, blá... Agora estou em tempo de descoberta, por mais que isso possa parecer estranho a muitos cinéfilos, eu não conhecia tão bem diretores como Fellini, Allen, Herzog e até os meus favoritos Bergman, Kubrick e Polanski, já que todos estes tinham trabalhos ainda desconhecidos por mim.

Optei ver algum filme mais “clássico” do nova-iorquino tagarela, pois já virá MATCH POINT e SCOOP – O GRANDE FURO. Comecei a assistir VICKY CRISTINA BARCELONA, mas estava muito cansado na ocasião, sem falar que a narração em voice over, totalmente dispensável, estava me dando nos nervos. MATCH me agradou, nada demais para aquele que é considerado um gênio cinematográfico; já SCOOP... Abandonei-o no meio, e fui mais do que o filme merecia. Ainda assim, eu devia a Allen uma atenção devida, foi o que senti. Vou ver seu filme “revelador” como escreveu algum crítico: NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA.

Resumo: divertidíssimo! O roteiro me fisgou já de cara. Allen como o comediante Alvyn Singer, seu alter-ego intelectual-tagarela-e-judeu-com-problemas-psicólogicos-que-tem-uma-visão-pessimista-do-mundo, tem ótimas sacadas, já logo no início definindo-se como character (personagem). Mas, o incrível nisso tudo é que o timing do cineasta é exato, suas expressões são impagáveis, e, ele diz tudo e mais um pouco que um cinéfilo gostaria de desabafar ao ter que aturar um chato na fila do cinema, ou, mesmo na faculdade, na biblioteca, no trabalho, etc. Tendo o espectador e o próprio elenco de extras como cúmplices, Allen transborda humor cáustico e nonsense.

Nada funcionaria, logicamente, se não houvesse química com a personagem Annie Hall, interpretada por Diane Keaton. Keaton entrega uma Annie humana, confusa, indecisa, nervosa (como diria o título em português), que, sofre a maior transformação com o avanço da estória. Uma mulher que se vê apaixonada por um sujeitinho que, ao mesmo tempo, é divertido e insuportável, carinhoso e egocêntrico, inteligente e irracional, apaixonado e cético. Afinal, ela ama ou odeia esse cara, admira-o ou não o suporta?

E não são só os ditos pseudo-intelectuais que são ridicularizados. Praticamente ninguém escapa à mira do diretor, pessoas abertamente supérfluas, personalidades do mundo “artístico” e do show business, o estado da Califórnia e Los Angeles. Somente uma coisa é defendida com unhas e dentes: a cidade de Nova York. É pela cidade, muito mais do que pela personagem título do filme que Woody Allen declara seu amor, seja pela boca de seu personagem, seja pelos olhos de sua câmera.

Mas, NOIVO NEURÓTICO é basicamente sobre o amor. Sobre nossos rituais de acasalamento (reparem na cena em que o casal toma vinho na sacada do apartemento de Annie), sobre nosso sentimento de incompletude e a solidão numa megalópole apinhada de pessoas que mal notam umas às outras. Todo o não-dito em uma relação, todo o véu que há no remorso e na raiva, tudo isso é desvelado, todas as opiniões são escancaradas. O que nos leva a pensar se uma relação transparente demais seja saudável, afinal. Eu ainda fico com os gregos: nada em demasia.

As DR’s da dupla Woody Allen/Diane Keaton são a atração principal, mas, já aviso, é imprescindível que nomes como James Joyce, Frances Ford Coppolla, Truman Capote (que aparece como sendo seu sósia), Freud, e outros, não lhe soem distantes, já que as piadas confiam no conhecimento do espectador sobre estes caras. Mas, faço uma ressalva: a má qualidade de tradução nas legendas. Aqueles sem um conhecimento intermediário de inglês perderão ótimas piadas, culpa da má escolha na economia de palavras nas legendas. A piada com o filme O PODEROSO CHEFÃO é uma delas, que passa batida pela legenda em português, o que pode ser uma explicação para muitas pessoas não perceberem o humorismo tênue de Allen.

Assistam! Fugirei da sinopse (sempre um saco!), apenas registro meu último elogio ao filme: sua conclusão é tão pessimista quanto emotiva, e, é dela que vem o título deste post. Bom filme
ORIGINALMENTE POSTADO EM FÁBULAS COTIDIANAS

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